Home NotíciasCastro permite uso político da máquina na sucessão da Alerj em seu último decreto

Castro permite uso político da máquina na sucessão da Alerj em seu último decreto

por Amanda Clark

O mais recente decreto assinado por Cláudio Castro antes de deixar o governo do Rio de Janeiro desencadeou uma nova crise no estado. Ao ampliar consideravelmente os poderes da Casa Civil, a medida possibilitou que o grupo político ligado ao ex-governador continuasse influenciando a máquina pública durante a disputa pela presidência da Alerj e pelo mandato-tampão no Palácio Guanabara.

O decreto foi emitido na segunda-feira, pouco antes da renúncia de Castro, e concedeu ao secretário Marco Simões a autoridade para realizar nomeações, exonerações e intervir em áreas críticas da gestão orçamentária. No entanto, a decisão foi suspensa pelo Judiciário do Rio, que considerou que o ato transferia para a Casa Civil competências que são exclusivas do governador.

Antes da suspensão, o estrago político já estava em andamento. Entre segunda e quinta-feira, foram divulgadas no Diário Oficial 125 exonerações assinadas por Marco Simões, muitas delas em setores estratégicos como a Secretaria de Educação e o Detran-RJ, locais onde havia influência de Rodrigo Bacellar, deputado cassado e preso novamente pela Polícia Federal.

Nos bastidores do governo, a percepção era de que os superpoderes concedidos à Casa Civil tinham o claro objetivo de permitir reorganizações na distribuição de cargos sem depender da aprovação direta do governador em exercício, o desembargador Ricardo Couto, presidente do TJRJ. Assim, uma limpeza nos cargos atribuídos ao grupo de Bacellar foi realizada.

A oposição, principalmente deputados de esquerda, relatou que as exonerações e movimentações administrativas foram usadas como forma de pressão sobre os que resistiram em apoiar Douglas Ruas para a presidência da Alerj.

Um levantamento com base nos atos publicados revelou que a Secretaria de Energia e Economia do Mar foi a mais atingida, com 26 exonerações. Em seguida, veio a Educação, com 25. Também ocorreram mudanças na Secretaria de Governo, no Detran-RJ e no Detro, espaços considerados parte da influência do grupo político desmantelado.

De acordo com parlamentares que falaram nos bastidores, as vagas abertas passaram a ser usadas como moeda de troca para obter apoio a Douglas Ruas. O deputado Vitor Júnior, um dos responsáveis por pedidos judiciais que contribuíram para a suspensão da eleição repentina na Alerj, mencionou que a pressão também afetou prefeitos do interior, chamados a influenciar deputados aliados.

O Governo do Estado do Rio negou, em comunicado, que as exonerações tenham sido motivadas por represália política e afirmou que todos os atos seguiram o fluxo administrativo regular, de acordo com as necessidades da gestão.

No entanto, a estrutura do decreto ajuda a explicar a forte reação. Conforme o texto, o secretário da Casa Civil só não poderia nomear secretários e presidentes de autarquias e fundações. Para os demais cargos, ele tinha autonomia. O decreto ainda autorizava a atuação da pasta na gestão orçamentária e financeira, incluindo a transferência de créditos entre órgãos.

Esse ponto específico influenciou a decisão da desembargadora Cristina Tereza Gaulia, do Tribunal de Justiça do Rio. Ao suspender o decreto, ela ressaltou que a condução da política orçamentária é uma atribuição essencial do governador e não pode ser delegada generalizadamente por um ato infralegal.

Na decisão liminar, a magistrada ainda alertou para o momento político delicado vivido pelo estado. “Essa situação de transição requer uma avaliação cuidadosa de normas que afetam diretamente a gestão orçamentária, a fim de evitar prejuízos à população”, escreveu Cristina Tereza Gaulia.

Fontes políticas indicam que, nos últimos dias, deputados que se comprometeram com a candidatura de Douglas Ruas já foram contemplados com cargos em pelo menos dois órgãos: o Detran-RJ e a Secretaria de Educação. Também circularam informações de que parlamentares foram reunidos em um almoço e informados de que perderiam espaço no governo caso não apoiassem o nome do PL.

De acordo com deputados, houve ameaças de cancelamento de obras de asfaltamento ligadas à Secretaria de Cidades, pasta que tinha Ruas como líder até a semana passada. Membros do governo não confirmam as pressões, mas nos bastidores admitem que uma eventual ascensão de Ruas ao governo alteraria a dinâmica de poder dentro do governo estadual.

Diante desse cenário, partidos de esquerda e o PDT estão organizando novas medidas judiciais. Agora, a intenção é investigar mais a fundo o suposto uso político da estrutura administrativa e defender que a próxima eleição para a presidência da Alerj ocorra com voto secreto, argumentando que os deputados estão sujeitos a retaliações.

Paralelamente, a própria Alerj começou a desmantelar a estrutura ligada a Rodrigo Bacellar. O presidente em exercício, Guilherme Delaroli, demitiu de uma vez 34 assessores do gabinete do ex-presidente da Casa, atingindo toda a estrutura política ao redor dele. A ação foi tomada por ordem da ministra Cármen Lúcia, do TSE, que determinou a imediata perda do mandato.

Entre os demitidos está Márcio Bruno Carvalho de Oliveira, pessoa de confiança de Bacellar. Ele já havia sido afastado em dezembro, no dia em que a Polícia Federal iniciou a primeira fase da Operação Unha e Carne, mas foi posteriormente reintegrado por indicação do deputado.

No final das contas, o decreto de despedida de Cláudio Castro não foi apenas um ato administrativo de encerramento de governo. Tornou-se uma arma política em um estado já imerso em crise institucional.

Com informações d´O Globo.

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