Investigação americana aponta trabalho forçado na produção de carne bovina brasileira
Os Estados Unidos abriram uma investigação formal contra o Brasil acusando o país de usar trabalho forçado na criação de gado, especificamente na produção de carne bovina congelada exportada para a China. A investigação foi conduzida pelo Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR), que divulgou relatório nesta quarta-feira com suas conclusões sobre práticas trabalhistas em 60 países.
De acordo com o documento, o uso de trabalho forçado na criação de gado no Brasil é considerado amplamente documentado. Os investigadores utilizaram essa acusação como justificativa para impor tarifas sobre produtos chineses, argumentando que a China não teria impedido adequadamente a importação de mercadorias produzidas com violação de direitos trabalhistas brasileiros.
Estratégia de tarifação contra produtos chineses
A estratégia americana é particularmente interessante: enquanto acusa o Brasil de violações trabalhistas, o USTR recomenda que produtos chineses importados pelos Estados Unidos sejam taxados em 12,5%. A justificativa é que a China teria falhado em aplicar proibições à importação de bens produzidos com trabalho forçado, conferindo vantagem competitiva aos exportadores brasileiros.
O relatório afirma que o suposto desrespeito às normas trabalhistas no Brasil permitiu ao país vender carne mais barata para Pequim, prejudicando os produtores americanos. O documento reconhece, porém, que nem toda carne importada pela China do Brasil necessariamente utilizou trabalho forçado, mas sugere que a prevalência dessas práticas torna provável que pelo menos parte das importações tenha sido produzida com violação trabalhista.
Explosão das exportações brasileiras para a China
Os dados apresentados no relatório mostram um crescimento extraordinário das exportações de carne congelada do Brasil para o mercado chinês. Entre 2015 e 2025, as exportações brasileiras para economias investigadas quase dobraram em volume, enquanto o crescimento da carne americana para essas mesmas nações foi de apenas 21%.
Para a China especificamente, os números são ainda mais impressionantes: as exportações brasileiras saltaram de 94 mil toneladas em 2015 para 1,6 milhão de toneladas em 2025, um crescimento de 17 vezes. Essa expansão fez a participação do produto brasileiro nas importações chinesas de carne aumentar de 38% em 2021 para 53% em 2025.
Em contraste, a participação da carne americana nas compras chinesas caiu significativamente, de 6% em 2021 para apenas 2% em 2025. O relatório também aponta que a carne congelada brasileira foi importada pela China a um valor 41% inferior ao da carne americana em 2025.
Reconhecimento de outros fatores competitivos
Apesar das acusações contra o Brasil, o USTR reconhece que existem outros fatores que contribuíram para a redução das vendas de carne americana para a China. O documento menciona explicitamente que o tamanho do rebanho bovino dos Estados Unidos também pode ter influenciado a competição entre as carnes.
Mesmo assim, o relatório sustenta que a ausência de uma proibição efetiva às importações de produtos associados ao trabalho forçado favoreceu os exportadores brasileiros e conferiu uma vantagem de custo indevida. A conclusão é que, em um cenário com fiscalização mais rigorosa, os Estados Unidos provavelmente teriam registrado maiores vendas, receitas e exportações de carne bovina para a China.
Amplitude da investigação e próximas etapas
A investigação do USTR não se restringe ao Brasil. Sessenta países estão na mira, todos acusados de importar ou produzir mercadorias que usam trabalho forçado. Para todos esses países, há recomendações de taxação entre 10% e 12,5% sobre suas mercadorias, dependendo do caso.
O Brasil está no grupo de maior tributação recomendada, com 12,5%. Uma decisão definitiva sobre essa nova onda de tarifas ainda será tomada, e uma audiência pública está marcada para o dia 7 de julho. Outros casos inclusos no relatório envolvem tabaco produzido em Malawi e arroz cultivado em Myanmar, situações nas quais o documento também compara as exportações desses países com as dos Estados Unidos.
A Abiec, entidade que representa os exportadores brasileiros de carne bovina, foi procurada para comentar as alegações americanas, mas optou por não se pronunciar oficialmente sobre o assunto.