Home NotíciasCuidadores do Amanhã: Quem estará ao seu lado na terceira idade?

Cuidadores do Amanhã: Quem estará ao seu lado na terceira idade?

por Amanda Clark

“A discussão sobre a reorganização familiar e as redes de apoio para aqueles que dedicam grande parte de suas vidas ao cuidado de seus entes queridos ainda é insuficiente. É crucial garantir suporte para quem cuida e refletir, desde já, sobre como desejamos envelhecer.”

Gradualmente, um ritmo se estabelece: o banheiro está próximo, o banho, o almoço e, talvez, uma partida de dominó ao final da tarde. A vida cotidiana de Maria Alice, uma aposentada de 67 anos que reside na Zona Norte do Rio de Janeiro, é voltada para os cuidados com sua mãe, que tem 91 anos. Por outro lado da cidade, Joana, com 71 anos, levanta-se diariamente às cinco da manhã para atender às necessidades do marido, que luta contra uma doença neurodegenerativa. Ambas expressam que uma pausa, mãos extras para dividir responsabilidades ou simplesmente alguém com quem discutir suas preocupações seriam extremamente úteis, mesmo que entre resignação e sinais visíveis de cansaço.

Quem cuidará de você na velhice? E quem se responsabilizará por aqueles que já estão ocupados em cuidar de pais e mães que vivem cada vez mais? Afinal, quem estará presente para cuidar de quem?

Essas indagações são relevantes e as respostas frequentemente vêm carregadas de incertezas. As novas dinâmicas familiares mostram um aumento no número de idosos vivendo por mais tempo e atingindo idades cada vez maiores. Isso revela uma necessidade crescente por arranjos menos desgastantes e que ofereçam menor risco de exaustão física e emocional para aqueles que aceitam a responsabilidade – seja diretamente ou indiretamente – de cuidar.

Quando se aborda a questão do envelhecimento populacional, é importante lembrar que 2070 está logo à frente. De acordo com previsões do IBGE, mais de um terço da população brasileira (37,8%) terá 60 anos ou mais. Essa taxa era apenas 8,7% em 2003 e subiu para 15,6% em 2023.

A velocidade das transformações exige que enfrentemos os desafios impostos pela longevidade. O IBGE estima que existem entre 600 mil e 700 mil cuidadores familiares dedicados a idosos no estado do Rio de Janeiro. Aproximadamente 90% desses cuidadores são mulheres que desempenham essa função essencial sem remuneração e muitas vezes sem o devido reconhecimento.

Retornando à questão inicial desta matéria e ao cotidiano vivido por Maria Alice e Joana, quanto mais cedo ampliarmos o debate sobre as redes de cuidado e afeto necessárias ao longo da vida adulta, mais gratificante e acolhedora poderá ser esta fase da vida para todos os envolvidos.

A conversa vai além do envelhecimento; trata-se de afetos, prioridades, solidariedade e do que nos proporciona sentido. Quanto mais compartilharmos nossos anseios, limites e expectativas, menos solitário e desgastante será o ato de cuidarmos uns dos outros.

A velhice não tem início aos 60 ou aos 70 anos; ela começa muito antes disso. Inicia-se quando escolhemos – ou deixamos de escolher – as pessoas com quem nos cercamos, os vínculos estabelecidos e as redes de cuidado que sustentarão nossa existência quando o tempo exigir mais companhia do que pressa.

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