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Acidente entre helicópteros no Recreio revela caos no tráfego aéreo do Rio de Janeiro

por Amanda Clark

O trágico acidente envolvendo dois helicópteros, que ocorreu no último domingo (14/06) no Recreio, Zona Sudoeste do Rio de Janeiro, deixou marcas visíveis na comunidade local. Moradores se deparam com janelas quebradas em suas residências devido aos estilhaços resultantes do impacto. Há um crescente temor entre os cidadãos em relação ao aumento do tráfego aéreo na área, que é frequentemente acompanhado por relatos de voos a baixa altitude e incômodos provocados pelo barulho constante das aeronaves.

Os dados revelam a amplitude do problema: o Aeroporto de Jacarepaguá se destaca como o mais movimentado do Brasil nessa categoria, com sete heliportos privados registrados somente entre Joatinga e Guaratiba. Segundo o Relatório Comparativo da Aviação Geral, publicado em maio pelo Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea), o total de pousos e decolagens realizados por helicópteros nesse aeroporto alcançou 7.903, correspondendo a 29% do total nacional.

Em comparação a maio de 2025, houve um crescimento notável de 15,9%. O Aeroporto Campo de Marte, localizado em São Paulo, ocupa a segunda posição com 2.642 movimentos. Os próximos três locais na lista também estão no Rio: Heliporto Farol de São Thomé em Campos (2.539), além dos aeroportos de Macaé (2.101) e Maricá (1.414).

Uma análise dos últimos três anos aponta para uma tendência ascendente no fluxo aéreo em Jacarepaguá: em 2023 foram contabilizados 63.203 pousos e decolagens; já em 2024, o número subiu levemente para 64.366; enquanto que em 2025 houve um impressionante aumento para 87.815 operações. Esse crescimento é impulsionado principalmente pelos grandes helicópteros que utilizam o aeroporto como base para atender ao setor offshore, contribuindo também para o elevado tráfego nas outras cidades fluminenses mencionadas.

A movimentação desses veículos aéreos se junta aos voos menores que partem da Barra da Tijuca e do Recreio com destino a passeios panorâmicos pela costa carioca e locais turísticos como a Costa Verde e Região dos Lagos, além das viagens corporativas. Essa realidade reforça a percepção de que o espaço aéreo da cidade está saturado.

Um levantamento adicional realizado pelo Decea revelou que cerca de 34% das aeronaves que operam no Aeroporto de Jacarepaguá não respeitam as normas de altitude mínima estabelecidas para a região. Essas informações foram apresentadas durante uma reunião com moradores na Barra da Tijuca no mês anterior, evidenciando as reclamações sobre poluição sonora e preocupações relacionadas à segurança nas áreas habitadas.

Na reunião estiveram presentes os deputados Claudio Caiado e Hugo Leal, ambos do PSD, além de representantes da NAV Brasil e da PAX, responsável pela gestão do terminal aéreo. Os parlamentares relataram que o Decea apresentou dados coletados por equipamentos instalados há cerca de um ano no aeroporto, que monitoram em tempo real as rotas, altitudes e comportamentos das aeronaves. Uma nova reunião sobre este assunto está marcada para o dia 22.

“A Câmara Comunitária tem questionado há anos os voos sobre a Barra, especialmente os realizados por aeronaves maiores. Na próxima reunião discutiremos porque não foram tomadas ações e multas contra aquelas que desrespeitaram as regras de altitude”, declarou Delair Dumbrosck, presidente da Câmara Comunitária da Barra.

A PAX Aeroportos divulgou uma nota afirmando ter assumido a gestão do terminal em maio de 2023 e implementado melhorias na infraestrutura local. A empresa atribui o aumento no movimento aéreo à “retomada econômica (…) e às atividades off-shore” assim como ao “crescimento do turismo” na cidade.

Novas evidências sobre a colisão

No dia seguinte ao acidente (15/06), novas gravações da colisão foram recebidas pela Polícia Civil. Capturadas pelas câmeras da Civitas, pertencentes à prefeitura do Rio, as imagens mostram as duas aeronaves caindo às 8h57. O delegado Alan Luxardo, da 42ª DP (Recreio), já ouviu três pessoas relacionadas ao incidente, incluindo os proprietários das aeronaves envolvidas na tragédia. A investigação busca entender se houve falha técnica ou erro humano durante o voo. Luxardo informou ainda que serão analisadas possíveis comunicações entre os pilotos antes do impacto. O Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) também está conduzindo suas próprias apurações sobre o caso.

Regulamentação do tráfego aéreo

No Rio de Janeiro, o tráfego aéreo dos helicópteros ocorre em rotas previamente estabelecidas pelos controladores dos voos; a manutenção das distâncias entre as aeronaves é feita visualmente pelos pilotos. Além disso, todos os operadores devem estar sintonizados na mesma frequência rádio para informarem sobre suas manobras e posições durante os voos. No entanto, não é obrigatório o uso de transponder — equipamento responsável por identificar outras aeronaves nas proximidades — nos helicópteros; medida diferente ocorre em São Paulo onde controladores monitoram esses voos diretamente.

Aeronaves sob suspeita

A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) estava investigando ambos os helicópteros envolvidos no acidente sob suspeita de realizar transporte aéreo clandestino (Taca). No ano passado recebeu uma denúncia anônima relatando que o helicóptero PP-MAC estaria operando como táxi aéreo sem licença apropriada; essa aeronave apresentava manutenção irregular e inconsistência nos registros diários das horas voadas.

A Anac instaurou um processo para averiguar essa denúncia e impôs uma multa à proprietária do helicóptero — Turfik Comércio de Frutas Ltda — por não apresentar documentos solicitados pela fiscalização dentro do prazo estipulado. Além disso, recomendou que tanto a aeronave quanto o Aeroporto de Jacarepaguá fossem incluídos no plano regular de fiscalização presencial sem especificar os resultados dessa ação.

A outra aeronave envolvida no acidente também foi alvo da Anac devido à suspeita semelhante relacionada ao serviço clandestino; registros indicaram movimentações estranhas associadas ao Heliporto da Lagoa durante uma operação especial realizada em fevereiro deste ano levando à recomendação para monitoramento rigoroso da mesma.

A Anac esclareceu ainda que ambas as aeronaves estavam regulares para operar dentro da aviação privada — ou seja, apenas transportando seus proprietários ou convidados — ressaltando ser prematuro associar essa situação específica ao acidente ocorrido. Segundo informações apuradas pela polícia civil localizadas através do site g1 , um dos helicópteros pertencia a um advogado próximo às vítimas envolvidas na tragédia descartando assim sua atividade como táxi aéreo regular; cabe lembrar que investigações acerca das causas dos acidentes são responsabilidade direta do Cenipa.

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