Nova legislação abre portas à exploração privada de recursos minerais
O Parlamento da Venezuela aprovou uma lei de mineração que marca um ponto de inflexão na política de gestão dos recursos naturais do país. Aprovada por unanimidade, a legislação permite que investidores estrangeiros e nacionais participem da exploração das vastas reservas minerais venezuelanas, seguindo o padrão estabelecido pela reforma da lei de hidrocarbonetos aprovada em janeiro.
A votação ocorreu sob pressão significativa dos Estados Unidos, que vem influenciando as políticas econômicas da Venezuela desde a captura de Nicolás Maduro em janeiro de 2025. A presidente interina Delcy Rodríguez, que assumiu o poder após esses eventos, deverá sancionar a lei em breve, sujeita à revisão pelo tribunal constitucional venezuelano.
Riquezas minerais da Venezuela
A Venezuela possui um patrimônio mineral extraordinário que vai muito além de suas conhecidas reservas de petróleo. O país é dotado de recursos significativos em ouro, diamante, bauxita e coltan, sendo este último particularmente valioso na fabricação de telefones celulares e equipamentos eletrônicos modernos. Essa diversidade de recursos coloca a nação sul-americana como um polo estratégico para a mineração global.
Rodríguez elogiou a nova legislação como um instrumento fundamental para modernizar, regular e potencializar a mineração no país. Segundo a presidente interina, a reforma fortalece a segurança jurídica, atrai investimentos e impulsionará a riqueza mineral em prol do desenvolvimento nacional.
Estrutura e incentivos da lei
A reforma estabelece expressamente que companhias privadas nacionais e estrangeiras podem participar dos negócios de mineração, além de permitir a criação de empresas de economia mista, com capital privado e público combinados. Os incentivos tributários incluem pagamentos de royalties de até 13%, tornando os negócios mais atraentes para investidores internacionais.
Jorge Rodríguez, irmão de Delcy e chefe do Parlamento, exaltou a futura lei como um veículo para a construção da prosperidade do futuro, reforçando o discurso governamental sobre os benefícios econômicos da abertura do setor mineral.
Desafios do controle territorial
Apesar da aprovação legislativa, a implementação da lei enfrenta obstáculos substanciais. A mineração na Venezuela concentra-se principalmente em um território de 112.000 km² conhecido como Arco Mineiro, região que permanece sob controle significativo de grupos armados organizados.
Gangues, sindicatos criminosos e até guerrilhas colombianas do ELN controlam setores inteiros das áreas de minas, frequentemente com o aval das forças de segurança locais. Esses grupos cobram comissões sobre todas as extrações e também impõem taxas e impostos ilegais sobre comércios e até profissionais do sexo que trabalham nos territórios mineradores.
O vazio de controle estatal
A suspensão de todas as concessões de minas em 2011 pelo então presidente Hugo Chávez criou um vazio no controle estatal que foi rapidamente preenchido por organizações criminosas. Esse hiato institucional permitiu que grupos criminosos começassem a tomar controle das minas, distribuindo-as entre si e estabelecendo sistemas de extorsão.
Pesquisadores especializados, como Lisseth Boon, autora do livro de investigação Oro Malandro, apontam que esses sindicatos criminosos desenvolveram um controle profundo dos territórios mineradores, mesmo em áreas supostamente militarizadas e com presença estatal.
Questões sobre a efetividade da lei
O grande questionamento que permanece é se a nova legislação conseguirá regular adequadamente a atividade mineradora e garantir que o ouro e outros minerais não provenham de fontes manchadas pela influência criminosa. Analistas da organização Insight Crime alertam para esse desafio fundamental: a necessidade de garantir a legitimidade da cadeia de suprimento mineral.
A lei representa uma mudança profunda no modelo de gestão estatal dos recursos naturais, abandonando a abordagem centralizada do chavismo. Porém, sua efetividade dependerá da capacidade do governo de restabelecer o controle territorial sobre o Arco Mineiro e neutralizar a influência dos grupos armados que atualmente dominam a produção mineral venezolana.