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Zona da Leopoldina: Onde o Choro pulsa no Rio de Janeiro

por Amanda Clark

Uma das regiões mais emblemáticas da cidade do Rio, a Zona da Leopoldina também tem muita importância para um gênero musical muito identificado com a cultura carioca: o Choro.

Embora não tenha origens primárias na região, o Choro se desenvolveu muito na Zona da Leopoldina por diversos motivos. Desde grandes músicos que moraram nessa parte da cidade, como Pixinguinha, até hoje em dia, com a continuidade de rodas e movimentos que fortalecem essa importante manifestação cultural.

“A história do Choro, como bem dizia o pesquisador Mozart de Araújo, por carência de documentação “digna de fé”, foi feita por deduções, pelo menos até fins dos anos de 1970, quando novas pesquisas são desenvolvidas a partir de um rico material que começa a ser (re)descoberto pelos esforços de importantes pesquisadores e acadêmicos. Entretanto, sabemos que a principal matéria prima para entender o tema são seus registros fonográficos, que servem para organizar uma genealogia desse gênero carioca de música instrumental de caráter urbano e um de seus primeiros registros é a polca “Querida por todos” de Joaquim Antônio da Silva Calado Júnior, datada de 1869 e dedicada a Chiquinha Gonzaga. Portanto, ainda sob o Império, a vida social e cultural da cidade se desenvolvia, sem sombra de dúvida, na área central, primeiro núcleo urbano do Rio de Janeiro onde se concentravam aquelas atividades”, explica Flávio Da Silveira, mestre e doutorando em antropologia.

Nesse texto, Flávio aborda a memória coletiva enquanto reconstrução de uma base comum de lembranças do evento “Suvaco” de Cobra e sua operação como modelo de validação da identidade do Choro na vida afetiva da região da Leolpodina.

“Na minha pesquisa em particular não me debruço sobre essa ideia de origem, pois não é o ponto de partida que considero relevante, mas sim, como esse gênero se tornou para o subúrbio da Leopoldina, uma importante expressão musical que simbolicamente contribuiu para a formação da identidade cultural desse importante território da Zona Norte. Por este motivo, o ponto de partida que considero importante para a discussão, é a reunião de músicos de Choro no interior de um pequeno botequim da Penha Circular – o Bar Santa Teresinha – ao longo de toda a década de 1970, que deu origem a roda denominada “Suvaco” de Cobra, criada pelo violonista Joyr Nascimento e seu irmão Joel Nascimento.

Além de Pixinguinha, que morou na Zona da Leolpodina, quais outros chorões viveram na região? Perguntei para Flávio, que respondeu: “É preciso chamar a atenção para o seguinte fato. Pixinguinha não apenas “morou na Zona da Leopoldina”. Ele viveu por 30 anos em Ramos, na única casa que ele conseguiu comprar em vida, entre 1939 e 1969. Estamos falando do maior nome da música brasileira de todos os tempos, que a vendeu por estar passando, junto com sua esposa, por dificuldades financeiras. A casa fica localizada na antiga Rua Belarmino Barreto nº 23, rebatizada no ano de 1956 com o nome de Rua Pixinguinha. A casa ainda existe e é um lugar de memória, cultuada, sobretudo no dia do Trem do Choro que celebra com essa linda manifestação, o Dia Nacional do Choro no dia 23 de abril. Bom, outros importantes chorões que habitaram esse território foram Luis Americano e Abel Ferreira, que possuem importância capital, como Pixinguinha, na configuração suburbana dentro do contexto musical de suas obras.

O antropólogo explica, ainda, que esse “capital cultural” da Zona da Leopoldina não se perdeu ao longo das décadas e a região segue com um reduto do Choro no Rio de Janeiro.

“Como disse, Joel Nascimento, principal protagonista dessa geração surgida nas rodas do “Suvaco” de Cobra, está por aí influenciando as novas gerações. Igualmente o Mestre Siqueira, cavaquinhista do último regional de Pixinguinha. Recentemente registrei a visita do músico e produtor musical Abel Luiz a Joel, em sua casa na Penha Circular, e foi emocionante. Poucos dias depois, estávamos Abel, Mestre Siqueira e eu, pelas ruas da Penha Circular, ouvindo as histórias do Mestre sobre as rodas nas quais participou nas décadas passadas. O diálogo e as trocas entre as gerações, me parece, seguem seu curso natural. Não posso deixar de lembrar de uma importante figura, com lastro sobre a região e que foi pioneiro em levar para a academia a temática do Choro produzido pela geração do “Suvaco” de Cobra, sendo uma referência no assunto, o Professor Alberto Boscarino Júnior”, disse Flávio Da Silveira.

Fotos de eventos organizados pelo Coletivo Instituto Cultural 100% Suburbano na Praça Ramos Figueira, o Reduto Cultural do Choro Alfredo da Rocha Vianna Filho (Pixinguinha) criado em 2014.

E futuro do Choro no Rio de Janeiro, na Zona da Leopoldina? O que deve ser feito para fortalecer esse gênero musical? Na análise de Flávio algumas coisas já estão sendo feitas, de forma independente.

“O trabalho que o Coletivo Instituto Cultural 100% Suburbano faz é um bom exemplo. Luiz Carlos “Nunuka” e Cláudio Jorge têm conseguido, à frente do Coletivo, um bom diálogo com o poder público, mas falta ainda um maior apoio das instituições públicas, no que tange a manutenção da cultura do Choro nesse território, que é capital para o desenvolvimento desse seguimento, por se tratar do que poderíamos classificar, de uma importante “Zona de Cultura” da cidade. Lembremos que o Choro se tornou Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil em 2023 e essa região é um locus de suma importância para o gênero. O Coletivo conseguiu, entre outros feitos, transformar a Praça Ramos Figueira, local de suas atividades culturais, no Reduto Cultural do Choro Alfredo da Rocha Vianna Filho (Pixinguinha) criado em 2014 através do Projeto de Lei Nº 833/2014 e, desde 2023, declarado como Patrimônio Cultural Imaterial do Estado do Rio de Janeiro através do Projeto de Lei Nº 2286/2023.

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