Home NotíciasSons de outrora: a Rua do Ouvidor revive o ritmo do samba em tardes memoráveis

Sons de outrora: a Rua do Ouvidor revive o ritmo do samba em tardes memoráveis

por Amanda Clark

Nos finais de semana, a região da Praça XV revela um encantamento especial. Poucos locais no Rio de Janeiro conseguem combinar, em um único espaço, uma missa solene, coral e orquestra, botequins cheios, galerias de arte vibrantes, samba nas ruas e os sinos centenários do século XVIII ressoando sobre a multidão.

Essa atmosfera inusitada — profundamente carioca — foi vivenciada neste sábado na Rua do Ouvidor por volta do horário do almoço.

A experiência começou dentro da Igreja de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores. A celebração da Santa Missa, conduzida com a presença total do coral e da orquestra, trouxe novamente à pequena igreja colonial uma imersão em música sacra e incenso, criando uma sensação de que o Centro do Rio voltava a ser o núcleo espiritual da cidade. As composições de Handel, Bach e Mozart reverberavam sob os altares dourados enquanto o movimento se intensificava nas ruas externas.

Ao término da cerimônia, a Rua do Ouvidor já pulsava com vida.

As mesas dos bares e botequins ocupavam as calçadas como de costume — repletas de pessoas — enquanto os centros culturais estavam animadamente frequentados. Galerias de arte recebiam visitantes ávidos, grupos se agrupavam nas esquinas com copos em mãos e ao fundo começava a contagiante roda de samba que tem dominado a Praça XV nos últimos anos. Guias turísticos acompanhavam grandes grupos de brasileiros e estrangeiros circulando pela área. Era uma tarde iluminada típica do outono carioca: sol radiante sem ser excessivamente quente, com uma multidão visivelmente alegre tomando conta do Centro.

<pNesse cenário vibrante, um grupo de amigos fez poucos passos até o famoso Toca do Baiacu, que se tornou um ícone dessa nova/velha boemia na Rua do Ouvidor. O pedido não poderia ser outro: a renomada rabada fumegante da casa chegou à mesa envolta em um aroma quase irresistível, acompanhada por um molho à campanha colorido e saboroso — preparado com três tipos diferentes de pimentão e cebola roxa que conferem um aspecto vibrante quase carnavalesco.

<pEnquanto o samba ganhava força nas ruas e garçons se moviam entre as mesas lotadas, artistas transitavam pelos espaços culturais da área. Foi então que algo que parecia saído de outra época ocorreu.

<pA cada hora redonda da tarde, os sinos começaram a tocar em sincronia. Os enormes sinos de bronze, que ficaram silenciados em muitas partes da cidade, voltaram a ganhar destaque ali.

Primeiro soou o sino da Lapa dos Mercadores.

Em seguida, como resposta quase imediata, os sinos da Igreja da Irmandade da Santa Cruz dos Militares tocaram exatamente do outro lado da Rua do Ouvidor.

<pAssim começou uma verdadeira batalha sonora sobre o Centro Histórico. Os sinos da Lapa replicavam enquanto os da Santa Cruz respondiam.

<pOs antigos bronzes pareciam dialogar acima das cabeças dos presentes, atravessando o som alegre do samba, o tilintar dos copos brindando, as risadas nas mesas e o batuque dos pagodes que preenchiam a rua movimentada. Durante alguns minutos a cada hora cheia — em meio ao caloroso bate-papo entre amigos — toda a região transformava-se em uma experiência sensorial única: onde música sacra se encontrava com samba; barroco se misturava ao ambiente dos botequins; igrejas coexistiam harmoniosamente com a boemia; tudo isso talvez só fosse possível no Rio de Janeiro.

E talvez essa combinação seja exatamente o que está trazendo vida nova à área da Praça XV.

O antigo Centro nunca foi um espaço silencioso ou meramente cênico. Durante séculos, ele foi moldado pelos sons: os sinos marcavam as horas, chamavam fiéis para as missas e anunciavam procissões ou eventos significativos. Ao mesmo tempo, as ruas eram repletas de comércio vibrante, cafés acolhedores e tavernas animadas repletas de encontros sociais.

O que ocorre atualmente aos sábados na Rua do Ouvidor reflete — embora em menor escala nos outros dias — uma revitalização dessa rica tradição perdida.

Não se trata apenas de uma reconstituição artificial voltada para turistas; é uma verdadeira manifestação viva da cidade.

Um lugar onde ainda é viável participar de uma missa com coral e orquestra numa igreja setecentista, sentar-se em um botequim simples diante de uma deliciosa rabada fumegante, ouvir samba ao ar livre e visitar galerias de arte cheias para logo depois ser surpreendido por uma batalha histórica entre sinos ecoando entre sobrados coloniais.

Poucas localidades no Rio conseguem reunir tanta história, beleza e vitalidade em apenas algumas quadras assim como esse local.

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