Home NotíciasRoberto Anderson e a Magia da Serra dos Pretos Forros

Roberto Anderson e a Magia da Serra dos Pretos Forros

por Amanda Clark

Realizei meus estudos iniciais no Colégio São Vicente de Paulo, uma instituição mantida por irmãs de caridade localizada na Tijuca. O primeiro grau, como era conhecido, ficava situado no topo de uma pequena elevação que abriga o Santuário da Medalha Milagrosa.

No colégio, as aulas de geografia também envolviam elementos artísticos. Os materiais didáticos traziam mapas em branco que precisavam ser preenchidos com cores. As freiras se dedicavam bastante a essa atividade. Era comum que nos instruíssem a afiar as pontas dos lápis coloridos com uma pequena faca. Essa raspagem deveria ser feita de forma bem fina para que se criasse um pó colorido. Em seguida, utilizávamos pequenos pedaços de algodão para espalhar esse pó sobre os mapas do Brasil, diferenciando os estados por cores. Como havia muitos estados e os estojos de lápis não ofereciam muitas opções, era necessário ter atenção para não utilizar a mesma cor em estados vizinhos.

Ao aplicar o algodão delicadamente sobre o pó colorido, conseguíamos um efeito esfumaçado quase transparente, que era o resultado desejado. O problema surgia quando pequenos fragmentos da ponta do lápis se misturavam ao algodão, deixando marcas indesejadas na coloração. Isso indicava que não havíamos sido cuidadosos o suficiente na raspagem do lápis ou na aplicação do algodão.

Coloríamos diversos mapas: do Brasil, da Guanabara, dos bairros e das características geográficas. A Serra da Tijuca era representada em verde escuro, enquanto rios, lagos e o mar eram retratados em azul; as áreas urbanas apareciam em tons marrons. O espaço ao redor do mapa também podia ser preenchido com outras cores, como vermelho ou amarelo. Esse processo tinha o intuito de facilitar a memorização e exigia tempo para que o resultado artístico fosse satisfatório.

Um nome específico sempre despertou minha curiosidade entre as serras cariocas: a Serra dos Pretos Forros. Para uma criança, tal nomenclatura parecia estranha. Por que referir-se a uma montanha usando o nome de um tecido? A professora nunca esclareceu essa questão, e é comum que crianças se apeguem a nomes e expressões curiosas. O som da expressão permanecia comigo e frequentemente me lembrava da sequência inusitada das palavras.

Anos depois, descobri que essa serra, situada entre Água Santa e Lins e Vasconcelos e fazendo divisa entre as zonas Oeste (Jacarepaguá) e Norte (Grande Méier), foi um importante caminho utilizado por escravizados que fugiam em busca de quilombos formados no Maciço da Tijuca. Além disso, também foi habitada por negros libertos dos engenhos próximos. Daí deriva sua denominação.

A história é fascinante! Ao compreender essa narrativa de resistência à opressão escravocrata, a sequência das palavras “pretos forros” passou a fazer total sentido para mim. Desde então, pronunciar esse nome é um prazer. A partir do ano 2000, essa serra foi reconhecida como uma Área de Proteção Ambiental e integra um dos quatro setores do Parque Nacional da Tijuca.

Apesar de sua rica história e beleza natural, a APA dos Pretos Forros enfrenta desafios devido à pressão urbana que se intensifica em suas regiões mais íngremes, onde moradias irregulares de baixa renda têm surgido. Um estudo realizado por Samara Silva dos Santos e Carlos Eduardo das Neves revelou que a área urbana dentro da APA cresceu de 22,68% em 1993 para 28,55% em 2024. É importante destacar que neste mesmo período houve também um aumento nas áreas florestais que substituíram antigas zonas agropecuárias.

Atualmente, aquele colégio já não existe mais e a Guanabara tornou-se um sonho efêmero. Os mapas continuam a se transformar: novos estados surgiram no Brasil e países alteraram seus nomes ao longo do tempo. As crianças hoje têm acesso a estojos de lápis de cor muito mais variados; não sei dizer se ainda utilizam aquela técnica antiga de raspagem dos lápis para colorir mapas. Contudo, a Serra dos Pretos Forros permanece firme, guardando suas histórias sobre fugas da violência histórica e resistência à pobreza contemporânea.

SANTOS & Neves, Mudanças na dinâmica socioambiental da APA Serra dos Pretos Forros entre 1993 e 2022 – Rio de Janeiro – DOI 10.51308/continentes.v1i27.621.

Postagens relacionadas

Deixe um comentário

Are you sure want to unlock this post?
Unlock left : 0
Are you sure want to cancel subscription?
-
00:00
00:00
Update Required Flash plugin
-
00:00
00:00