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Quirinas’: Uma Nova Perspectiva sobre as Heroínas do Trabalho Doméstico na Literatura Brasileira

por Amanda Clark

Atualmente, cerca de 7 milhões de pessoas no Brasil exercem atividades como babás, faxineiras, cozinheiras, lavadeiras, diaristas e cuidadores de idosos, conforme dados do IBGE. A maioria desses trabalhadores é composta por mulheres negras, em situação de vulnerabilidade econômica e que estão à frente de suas famílias. Este grupo representa a mais significativa categoria de trabalho no país, mas também é o que enfrenta as piores condições laborais, com os menores salários e baixos índices de aposentadoria. O trabalho doméstico, que remete à herança da escravidão, é tão vital na atualidade que foi classificado como “essencial” durante a pandemia de Covid-19. Infelizmente, isso resultou em um aumento alarmante nas mortes entre essas profissionais durante este período. Como bem expressa a ativista francesa Françoise Vergès, “são as mulheres invisíveis que abrem o mundo”.

A tese de doutorado da jornalista e pesquisadora Mariana Filgueiras, da Universidade Federal Fluminense (UFF), surgiu a partir da reflexão sobre a ausência das trabalhadoras domésticas na literatura brasileira, apesar de sua presença significativa nos lares do país desde o final do século XIX. Essa investigação rendeu a obra “Quirinas: a trabalhadora doméstica como protagonista na literatura brasileira contemporânea”, que conquistou o Prêmio Capes de Tese 2025 e será lançada no dia 16 de abril. O livro já está disponível para download gratuito no site da editora Pangeia.

Com a capa criada por Manuela Navas, “Quirinas” mergulha em obras como Perifobia (Lilia Guerra, 2018), Com armas sonolentas (Carola Saavedra, 2019), Suíte Tóquio (Giovana Madalosso, 2020) e Solitária (Eliana Alves Cruz, 2022). Mariana argumenta que essas narrativas são pioneiras ao colocar as trabalhadoras domésticas no centro das histórias. Nelas, as personagens têm suas subjetividades exploradas e suas famílias entrelaçadas nas tramas, oferecendo novas perspectivas sobre o trabalho doméstico.

“O trabalho doméstico se torna um tema central nas narrativas, trazendo ações ao enredo que geram cenas originais e provocam diálogos e questionamentos de forma orgânica, sem necessariamente serem didáticas ou panfletárias”, analisa Mariana.

A autora também destaca os desafios ao reabilitar essas personagens diante do que ela denomina “estereótipos positivos”.

“A socióloga Patricia Hill-Collins introduz um conceito fundamental neste debate: ‘imagens de controle’. Esses estereótipos podem limitar as personagens tanto negativamente quanto positivamente. Ao tentar resgatar figuras que foram marginalizadas por tanto tempo, é preciso ter cautela para não criar heroínas com comportamentos previsíveis e sem falhas morais ou contradições. Isso também pode desumanizá-las”, conclui a autora.

Sobre o livro: Quirinas: a trabalhadora doméstica como protagonista na literatura brasileira contemporânea (Editora Pangeia/EdUff) é uma obra premiada pelo edital Coleção Ensaios Egressos 2025.2 – POSLIT/UFF – Capes. O material está disponível para download gratuito no site da editora Pangeia: Clique aqui.

A pesquisa realizada pela UFF foi reconhecida com o Prêmio Capes de Tese e mapeou 37 mulheres protagonistas em contos e romances publicados entre 1859 e 2024; notável é que a primeira dessas protagonistas só emergiu em 2018.

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