Com vistas icônicas do Rio de Janeiro, como a Marquês de Sapucaí, o Maracanã e áreas da zona portuária, além do histórico bairro do Catumbi, o Morro de Santa Teresa pode enfrentar alterações significativas em sua paisagem. Elevando-se a cerca de 70 metros acima do nível do mar, essa localidade está sob a influência do ambicioso projeto Praça Onze Maravilha.
Anunciado pela Prefeitura em novembro do ano passado, o megaprojeto contempla intervenções ao redor do Sambódromo e visa estimular o mercado imobiliário em um dos bairros mais antigos da cidade. Essa iniciativa segue uma linha semelhante à revitalização da área portuária. O plano abrange não apenas novas moradias e empreendimentos comerciais, mas também a demolição de grande parte do Elevado 31 de Março, criando um mergulhão que conectará o Santo Cristo à Zona Sul.
Primeira apresentação do projeto
O desenho inicial da proposta visava integrar harmoniosamente as edificações ao entorno. As construções residenciais ou comerciais seriam distribuídas em lotes menores, com espaçamentos que garantiriam a circulação de ar e respeitariam as zonas de proteção cultural. A altura dos edifícios variaria conforme a localização, com especial atenção na subida do Morro de Santa Teresa, nas proximidades da Rua Paula Matos.
Os prédios mais altos estariam concentrados ao longo da Avenida Presidente Vargas, limitados a cerca de 30 andares. À medida que se aproximassem das encostas e áreas históricas, essas alturas seriam diminuídas para evitar a criação de um “paredão” que comprometesse a estética local.
Paredão residencial
Atualmente, a proposta em discussão na Câmara dos Vereadores sugere construções com até 92 metros de altura em todo o perímetro. Essa nova altura, dimensionada pelo arquiteto Rodrigo Azevedo a pedido de um veículo de comunicação, pode prejudicar a vista do Largo das Neves — um importante ponto histórico onde se encontra a Igreja de Nossa Senhora das Neves e um conjunto arquitetônico datado do século XIX. Azevedo é um dos especialistas que analisaram a área para a prefeitura no contexto do Procedimento de Manifestação de Interesse (PMI). O total da área projetada para intervenção é de 315 mil metros quadrados, com potencial para abrigar aproximadamente 4 mil unidades habitacionais.
Azevedo expressou sua preocupação: “Esse paredão compromete um conjunto arquitetônico do século XIX que é único no Brasil. Nossa paisagem natural é um dos maiores ativos da cidade e deve receber maior cuidado e atenção”.
A inquietação sobre os impactos do projeto já chegou aos órgãos técnicos competentes. Em uma reunião realizada no início de abril, o Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio discutiu o assunto. Sydnei Menezes, presidente do conselho, manifestou preocupação pela falta de informações mais detalhadas sobre os efeitos da proposta, embora considere positiva a intenção de revitalizar a região.
No dia 6 de maio ocorrerá uma audiência pública promovida pela Comissão de Assuntos Urbanos da Câmara municipal para debater o tema. O vereador Pedro Duarte (PSD), presidente da comissão, comentou que “a alteração na altura prevista pela nova legislação levantou importantes alertas que precisam ser levados em conta”. Ele destacou preocupações relacionadas ao impacto visual das novas construções na paisagem de Santa Teresa e questionou se as edificações não ultrapassariam limites estabelecidos pelo Comando da Aeronáutica. “Precisamos encontrar um equilíbrio com a Prefeitura que assegure viabilidade econômica às intervenções sem descaracterizar a região ou gerar novos problemas urbanos”, concluiu.