Um evento típico do Rio de Janeiro acontecerá novamente neste sábado, 9 de maio, na tradicional Rua do Ouvidor. Por volta do meio-dia, os bares do Arco do Teles estarão preenchidos, enquanto garçons navegam pelas pedras históricas servindo chope e petiscos. Turistas capturam imagens dos sobrados do século XVIII e rodas de samba se formam na Praça XV. Nesse contexto vibrante, os sinos da antiga Igreja da Irmandade de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores começarão a tocar, criando um momento em que a rua parece parar.
A celebração da Santa Missa solene será conduzida pelo padre Vitor Pimentel Pereira, com a cerimônia sendo realizada em latim e acompanhada por um coral completo e uma orquestra sob a regência da soprano Juliana Sucupira. A procissão de entrada, marcada pela peça “Jesus, Alegria dos Homens”, de Bach, tem o poder de silenciar o ambiente ao redor; conversas se interrompem e muitos se aproximam da porta da pequena igreja setecentista para assistir ao ritual. Na entrada, irmãos, coroinhas e sacerdotes vestindo paramentos levam o estandarte verde da irmandade histórica de comerciantes cariocas. O pano verde que cobre a entrada é levantado pelos seguranças uniformizados para permitir a passagem do cortejo.
Este sábado terá um significado especial para a celebração. Além de marcar o Dia das Mães no domingo seguinte, a missa será dedicada em agradecimento pelo aniversário do provedor Cláudio André de Castro. Sua administração é reconhecida pelo completo restauro do templo, recuperação de peças sacras tricentenárias e revitalização das tradições litúrgicas da confraria de comerciantes fundada em 1747 e oficialmente instalada na igreja em 1750.
Durante a cerimônia, todo o patrimônio histórico conservado pela irmandade ao longo dos quase três séculos será utilizado. Isso inclui objetos recentemente recuperados com apoio da polícia em antiquários locais: uma cruz processional feita de prata, estandartes históricos, prataria sacra antiga e lanternas processionais entre outros itens litúrgicos pertencentes à confraria. A procissão entrará na igreja ao som polifônico executado por um coral composto por 16 vozes, acompanhado por violino, flauta, órgão e percussão.
Situada no coração histórico do Centro do Rio, a Igreja de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores possui uma relevância especial. Construída durante o auge do ciclo colonial carioca por comerciantes da Rua do Ouvidor, a igreja barroca resistiu a transformações urbanas drásticas, crises econômicas e até mesmo à Revolta da Armada em 1893 quando um tiro disparado pelo encouraçado Aquidabã atingiu sua torre. Segundo relatos populares, a imagem de Nossa Senhora da Fé caiu de uma altura superior a vinte metros e sobreviveu praticamente ilesa; este milagre é reverenciado pelos devotos até hoje. A imagem está exposta na sacristia junto à bala que causou seu acidente.
Tombada pelo IPHAN desde 1938, a igreja ficou silente na rotina do Centro por muitos anos. Recentemente, no entanto, ela voltou a ser parte ativa da vida urbana graças aos esforços restauradores promovidos pela irmandade e pela Venerável Liga dos Devotos de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores. Os sinos voltaram a tocar junto com corais e missas solenes; até mesmo o antigo relógio da torre foi reparado após mais de um século parado. Após quatro anos fechada para reformas, a igreja agora brilha novamente com funcionamento diário em horário ampliado.
A transformação acontece paralelamente à revitalização da Praça XV e do Arco do Teles como pontos centrais de convivência no Rio durante os finais de semana. O trecho histórico que antes era associado apenas ao comércio nos dias úteis agora atrai cariocas interessados em gastronomia, samba e cultura ao ar livre. Ninguém representa melhor essa fusão entre tradição e modernidade do que a própria Lapa dos Mercadores.
Nas Missas Solenes realizadas aos sábados e domingos, é comum ver frequentadores dos bares pausando suas conversas para observar a procissão saindo pela porta principal da igreja. Ao final da missa, enquanto o poderoso “Aleluia”, de Handel ressoa intensamente dentro do templo sob interpretação coral acompanhada por orquestra, os sinos tocam novamente enquanto o cortejo se dirige lentamente ao Arco do Teles antes de retornar pela entrada lateral voltada para os antigos becos coloniais. Os belíssimos acordes permeiam as janelas da encantadora igrejinha elíptica enquanto o padre abençoa as refeições nas mesas já postas.
Este é um daqueles momentos raros em que o Centro do Rio reúne suas diversas camadas históricas: desde os comerciantes portugueses até as irmandades religiosas; passando pelos sobrados coloniais até os botequins onde se faz samba e fé junto à música clássica — tudo isso animando as ruas antigas da Praça XV. O próprio provedor pode ser visto praticamente todos os sábados almoçando na icônica Toca do Baiacu, famoso botequim reconhecido até internacionalmente por suas deliciosas costelas e rabadas.
A Santa Missa Solene ocorrerá neste sábado, 9 de maio, às 12h15 na Igreja de Nossa Senhora da Lapa dos Mercadores localizada na Rua do Ouvidor, 35 — próxima ao Arco do Teles e à Praça XV. O local é facilmente acessível e conta ainda com estacionamento subterrâneo gerido pela Estapar logo abaixo do prédio da Bolsa.