Após aproximadamente 16 horas de julgamento no III Tribunal do Júri do Rio, Cíntia Mariano Dias Cabral foi condenada, na madrugada desta quinta-feira (data não especificada), a 49 anos de prisão, em regime fechado, por matar a enteada Fernanda Cabral, de 22 anos, e tentar matar o enteado, Bruno Cabral, então com 16, ambos envenenados com chumbinho.
A sentença foi lida por volta das 7h pela juíza Tula Mello. Os jurados levaram menos de 30 minutos para chegar ao veredito. Cíntia está presa desde julho de 2022 e não poderá recorrer em liberdade. Segundo a acusação, o crime foi motivado por ciúmes do relacionamento dos adolescentes com o pai, marido da ré à época dos fatos.
Ciúmes e premeditação
Ao proferir a sentença, a magistrada ressaltou a gravidade da conduta e o planejamento do crime.
“A culpabilidade exacerbou. A acusada ceifou a vida da enteada Fernanda. Foi premeditado. A ré planejou friamente a morte da vítima”, afirmou a juíza, destacando ainda as “consequências nefastas” dos atos.
De acordo com a decisão, Cíntia tentou despistar a equipe médica ao sugerir que Fernanda passava mal por causa do uso de anabolizantes, o que teria prejudicado o atendimento e reduzido as chances de sobrevivência da jovem.
A leitura da sentença foi acompanhada por familiares das vítimas. Na transmissão do julgamento pela internet, foi possível ouvir um grito no momento em que a condenação foi anunciada. Ao encerrar a sessão, a juíza se solidarizou com a família. “A Fernanda não vai voltar, mas esse é um momento importante, no momento em que a Justiça está sendo feita”, declarou.
A mãe dos jovens, Jane Cabral, afirmou que a decisão traz algum alívio, ainda que insuficiente diante da perda. “Nada vai trazer a Fê de volta, mas é um pouquinho confortante. Que ela fique lá por muito tempo”, disse à TV Globo.
Os seis advogados que compõem a defesa da ré informaram que vão recorrer da condenação.
Suspeita de terceira vítima
Durante o julgamento, os dois filhos biológicos de Cíntia relataram episódios que levantaram suspeitas sobre um possível histórico de violência.
Lucas Mariano Rodrigues afirmou que, anos antes, um ex-enteado da mãe teria sido hospitalizado após ingerir um líquido com cheiro semelhante a querosene. Segundo ele, o caso ocorreu quando Cíntia mantinha outro relacionamento.
“Meu pai falou que, supostamente, ela tinha dado querosene a meu irmão, de outro relacionamento dele. Na época ele tinha 5 ou 6 anos, e foi para o hospital”, contou.
Lucas também declarou que a mãe teria confessado o envenenamento de Fernanda e a tentativa contra Bruno em conversa reservada, mas que, ao chegar à delegacia, tentou incriminá-lo para evitar a prisão.
Já Carla Mariano Rodrigues relatou outro episódio envolvendo a mãe. Quando tinha 12 anos, disse ter sido orientada por Cíntia a mentir sobre um falso sequestro, após ter sido deixada em uma comunidade onde supostos criminosos a aguardavam. A versão verdadeira, segundo ela, só foi revelada ao pai durante audiência realizada em 2024.
Os crimes
O primeiro caso ocorreu em 15 de março de 2022. Após o jantar, Fernanda passou mal com sintomas típicos de intoxicação exógena, como tontura e visão turva. Ela morreu depois de 13 dias internada. Inicialmente tratada como morte por causas naturais, a suspeita de envenenamento surgiu dois meses depois. A confirmação veio após a exumação do corpo.
Em 15 de maio do mesmo ano, Bruno também passou mal depois de um almoço preparado pela madrasta. O adolescente relatou ter sentido gosto amargo no feijão e notado “bolinhas azuis” na comida. Diferentemente da irmã, recebeu atendimento médico imediato e sobreviveu após lavagem estomacal, que confirmou a presença do veneno.
Com a condenação, a Justiça considerou comprovado que os crimes foram praticados de forma deliberada e com motivação ligada a conflitos familiares, marcados, segundo o Ministério Público, por ciúmes e ressentimento da madrasta em relação ao vínculo dos adolescentes com o pai.