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Letícia Barros: O governo é parte do problema da dívida, não a solução.

por Amanda Clark

Letícia Barros atua como advogada e empreendedora no campo da comunicação política. Ela ocupa a posição de gerente de comunicação global no Ladies of Liberty Alliance (LOLA) e é fellow do Amplifica.

No mês de março deste ano, o Brasil alcançou um alarmante índice de 80,4% de famílias endividadas. Em resposta a essa situação crítica, o governo federal lançou uma nova iniciativa eleitoral chamada “Desenrola 2.0”, destinada à renegociação das dívidas de determinados grupos. Contudo, muitos não percebem que essa solução apresentada pelo governo é um remédio para um problema gerado por suas próprias ações, perpetuando um ciclo interminável de intervenção estatal.

A proposta do programa, disfarçada sob a intenção de promover melhorias financeiras para as famílias brasileiras, oferece a possibilidade de que “brasileiros com dívidas possam renegociar seus débitos com descontos que variam entre 30% e 90% do valor principal, além de juros limitados a 1,99% ao mês”. Entre as opções disponíveis está o uso de até 20% do saldo do FGTS, um fundo que possui restrições severas em relação aos saques.

É importante refletir sobre as características do FGTS antes de explorar outras modalidades oferecidas. Criado na década de 1960, esse fundo foi concebido como uma estratégia para garantir estabilidade financeira aos trabalhadores em momento de desemprego. Trata-se de uma reserva obrigatória, composta por uma porcentagem mensal dos salários dos trabalhadores. A ideia paternalista subjacente ao FGTS implica que o trabalhador seria incapaz de economizar por conta própria, razão pela qual o Estado assume essa responsabilidade.

O economista Milton Friedman caracterizou medidas desse tipo como a “tirania da benevolência”, onde o Estado intervém sob a justificativa de proteger os trabalhadores, mas acaba tomando decisões em seu lugar. O grande desafio é que programas intervencionistas têm custos elevados: eles se configuram como formas sutis de controle que prometem segurança enquanto restringem a liberdade e autonomia dos cidadãos, mantendo-os presos em um ciclo contínuo de dependência do próprio Estado que se propõe a salvá-los.

Como ocorre com qualquer programa social, os recursos do FGTS não são direcionados para contas individuais dos trabalhadores. Esses recursos são utilizados em empréstimos acessíveis para outros cidadãos e aplicados em programas sociais voltados para habitação e saneamento básico. O rendimento do fundo é atrelado à taxa referencial mais 3% ao ano, montante que historicamente permanece abaixo da inflação.

Ao presumir que os trabalhadores são incapazes de administrar suas finanças pessoais, o governo retira mensalmente uma quantia que poderia ser utilizada para investimentos ou até mesmo para quitar dívidas existentes. Em resumo, o governo retém parte do salário dos funcionários, proporciona rendimentos abaixo da inflação – resultando em devoluções menores do que os valores depositados – e determina quando e como os trabalhadores podem acessar esses recursos, apresentando-se como um salvador ao oferecer soluções milagrosas.

Piorando ainda mais a situação financeira das famílias brasileiras está o excesso nos gastos estatais. A combinação letal em qualquer economia se dá quando se gasta mais do que se arrecada. Em março de 2026, o déficit primário do governo federal atingiu R$ 73,7 bilhões, estabelecendo um recorde negativo para o mês desde 1997. Como resultado dessa gestão fiscal irresponsável, a inflação aumenta consideravelmente, as taxas de juros crescem e o crédito torna-se inacessível para todos – intensificando as dificuldades financeiras.

Os trabalhadores não se endividam apenas por imprudência; muitos se veem em situações difíceis porque suas rendas reais foram comprometidas pela política fiscal desastrosa. Assim sendo, quando Lula afirma que “é positivo que o povo tenha condições de contrair dívidas”, ele revela não apenas uma falta de responsabilidade fiscal, mas também uma falha social e moral por parte do governo que compromete a dignidade e autonomia dos seus eleitores.

Esse círculo vicioso é cruel: o governo utiliza o FGTS – recursos que ele mesmo restringiu com rendimentos desfavoráveis – para ajudar na quitação das dívidas geradas em um cenário econômico caracterizado pelas altas taxas de juros provocadas pela inflação alimentada pelo próprio governo. Friedman já antevia esse fenômeno no século XX ao argumentar que cada intervenção governamental gera distorções que requerem novas intervenções subsequentes, aprisionando as pessoas em ciclos intermináveis de dependência estatal.

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