Uma imagem em preto e branco, feita em 1941, ajuda a contar um dos capítulos mais decisivos da transformação da mobilidade do Rio. A fotografia raríssima, registrada na altura de Manguinhos, mostra o início das obras de abertura da Avenida Brasil, com o então imponente Castelo Mourisco ao fundo (o edifício-sede da Fundação Oswaldo Cruz).
O registro faz parte de um conjunto redescoberto pelo Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro. Ao todo, já foram identificadas mais de 14 mil imagens distribuídas em 11 álbuns. O material foi catalogado e resultou no lançamento do livro digital gratuito “Achados e Perdidos: imagens inéditas do Rio de Janeiro (1937-1945)”, que reúne um conjunto valioso de fotografias raras da cidade durante o período do Estado Novo.
Fruto de uma extensa pesquisa, recuperação e digitalização de imagens deterioradas pelo tempo, a publicação revela registros inéditos realizados pela família Malta ao longo da gestão do prefeito Henrique Dodsworth, oferecendo um panorama das transformações urbanas, culturais e sociais do Rio naquele período.
Abertura da via
A imagem mostra parte da via, ainda como um imenso canteiro de obras, em uma região predominantemente rural, antes mesmo do crescimento das comunidades costeiras do Complexo da Maré. Inaugurada em 1946 pelo presidente Getúlio Vargas, a Avenida Brasil foi planejada para desafogar o trânsito e estabelecer uma ligação rápida entre o Centro e as zonas Norte e Oeste. O traçado partia da Avenida Rodrigues Alves e do Cais do Porto, conectando a região central a bairros que iam da Ponta do Caju até Irajá.
Com a instalação de fábricas e a execução de obras de urbanização, a região passou a atrair mão de obra de diferentes partes do Brasil. Muitos trabalhadores chegavam justamente pela nova estrada e se fixavam em áreas historicamente mais acessíveis à população de baixa renda, como margens de rios, mangues, terrenos públicos e morros. O impacto foi direto em bairros como Bonsucesso, Manguinhos, Ramos, Olaria e Penha, que perderam gradualmente o aspecto rural.
Outros registros encontrados
O acervo recuperado pelo Arquivo também inclui registros raros da abertura da Avenida Presidente Vargas, outra intervenção de grande porte no período. Mais de 500 prédios foram demolidos para a construção da via, num processo que alterou profundamente a região central.
Entre as descobertas está a única fotografia conhecida da casa de Tia Ciata, na antiga Praça Onze, área que também desapareceu com as obras. O imóvel, localizado na Rua Visconde de Itaúna (extinta), número 117, segundo historiadores, funcionou como um dos principais pontos de encontro da sociabilidade negra urbana entre o final do século XIX e o início do século XX, na área conhecida hoje como Pequena África.