A descolonização no Brasil teve seu início político em 1822, mas, em 2026, ainda se observa uma continuidade desse colonialismo intelectual nas instituições de ensino. A predominância de um cânone que privilegia o homem branco, tanto europeu quanto norte-americano, como o único legítimo produtor de conhecimento universal ainda persiste. Isso resulta na formação de profissionais que dominam as obras de Foucault, mas desconhecem Ailton Krenak; que decoram Freud sem ter ouvido falar de Suely Rolnik; que leem Platão durante a graduação e se formam sem qualquer contato com filósofos bantu. Paulo Freire já havia chamado a atenção para essa problemática em seu livro “Pedagogia do Oprimido”, publicado em 1968.
O currículo se revela como um espaço ocupado por um modelo já estabelecido. Nos cursos de Filosofia das universidades federais brasileiras, a grade curricular normalmente abrange desde os Pré-Socráticos até Heidegger, com um salto para a Escola de Frankfurt e o pós-estruturalismo francês. Autores africanos, indígenas ou latino-americanos são frequentemente relegados a “tópicos especiais” ou disciplinas optativas. Na área da Psicologia, a situação é ainda mais rigorosa: do primeiro ao último semestre, os alunos percorrem uma trajetória que vai de Wundt a Lacan e de Skinner ao DSM-5, sem espaço para qualquer epistemologia não ocidental. Dessa forma, a prática clínica se desenvolve utilizando ferramentas criadas para atender ao sujeito europeu do século XIX enquanto ignora o sofrimento dos indivíduos periféricos.
A manutenção dessa estrutura é sustentada por padrões previamente definidos. Frantz Fanon denunciou em sua obra “Pele Negra, Máscaras Brancas” (1952) o fenômeno do “epistemicídio”, que se refere à eliminação de outras formas de conhecimento. A autora nigeriana Oyèrónk Oy?wùmí, em “The Invention of Women” (1997), evidencia como a categoria “mulher” foi imposta pela sociologia ocidental a sociedades iorubás que não se organizavam segundo essa lógica. Assim, não estamos apenas importando teorias; também estamos trazendo os problemas que elas pretendem resolver.
O argumento de que “não há produção relevante fora do eixo Norte” é superficial e ignora uma vasta biblioteca de saberes:
- Achille Mbembe, Camarões: “Crítica da Razão Negra” (2013) – Desconstrói a noção de que a modernidade europeia existiu sem a plantation e as colônias.
- Souleymane Bachir Diagne, Senegal: “African Art as Philosophy” (2011) – Apresenta arte e oralidade como sistemas filosóficos completos.
- Paulina Chiziane, Moçambique: “Niketche: Uma História de Poligamia” (2002) – Uma obra literária que também serve como análise da psicologia social da mulher africana.
- Sílvia Rivera Cusicanqui, Bolívia: “Ch’ixinakax utxiwa” (2010) – Reflexão sobre práticas e discursos descolonizadores através do conceito “ch’ixi”.
- Ailton Krenak, Brasil: “Ideias para Adiar o Fim do Mundo” (2019) – Uma filosofia da terra em contraposição à mercadoria-natureza.
- Davíd Kopenawa Yanomami + Bruce Albert: “A Queda do Céu” (2010) – Uma crítica à mercantilização da cultura e cosmologia indígena.
- Gayatri Chakravorty Spivak, Índia: “Pode o Subalterno Falar?” (1985) – Um texto fundamental para compreender porque alguns saberes não são reconhecidos como teoria.
- Byung-Chul Han, Coreia do Sul/Alemanha: “Sociedade do Cansaço” (2010) – Crítica à psicologia neoliberal sob uma perspectiva fora do eixo EUA-Europa.
- Liang Shuming, China: “The Substance of Chinese Culture” (1949) – Defende uma psicologia confuciana como alternativa ao individualismo metodológico.
- Bell hooks, EUA: “Ensinando a Transgredir” (1994) – Propõe uma pedagogia voltada à liberdade e critica o cânone acadêmico estabelecido.
- Vinciane Despret, Bélgica: “O Que Diria os Animais?” (2012) – Aborda uma psicologia que rejeita separar humano e natureza.
A relevância desse tema na prática é indiscutível:
- Na clínica: O colonialismo intelectual se manifesta no consultório quando psicólogos familiarizados apenas com Freud e DSM-5 traduzem experiências locais para categorias europeias. Assim, termos como “susto” tornam-se TEPT e “encosto” é rotulado como delírio. O paciente perde o direito de nomear sua dor usando as palavras próprias da sua comunidade. Antônio Bispo dos Santos, conhecido como Nêgo Bispo, expressou essa realidade ao afirmar: “Quando chegamos à universidade, aprendemos que não sabíamos nada. E quando retornamos à comunidade, nos disseram que desaprendemos tudo porque a universidade nos ensina a pensar com as cabeças dos outros.” A formação na psicologia brasileira termina por criar especialistas em traduzir realidades nacionais utilizando um dicionário europeu.
- Na política pública: Gestores que estudaram somente Rawls elaboram políticas redistributivas sem compreender as lógicas do “bem viver” andino ou do conceito ubuntu bantu.
- Cientificamente: Saberes indígenas sobre manejo florestal são descartados como meras crenças enquanto milhões são gastos em “soluções inovadoras” já existentes há séculos.
A descolonização não deve ser vista como um mero substituto; ela precisa promover uma pluralidade de vozes. Ninguém sugere abandonar Kant; ao invés disso, propõe-se colocá-lo em diálogo com Zera Yacob, filósofo etíope do século XVII que escreveu “Hatata” antes mesmo do surgimento do “Discurso do Método”. É fundamental trazer Piaget para discutir desenvolvimento infantil com Léon Kengo wa Dondo dentro das sociedades baseadas em linhagens. Além disso, posicionar Beauvoir ao lado de Lélia Gonzalez — uma pensadora que já articulava questões relacionadas à raça, classe e gênero nos anos 80 antes mesmo da popularização do termo “interseccionalidade”. A universidade brasileira deve deixar de ser uma extensão da Sorbonne e tornar-se um verdadeiro ponto de encontro cultural. Enquanto as referências externas continuarem dominando a formação acadêmica, será desafiador gerar interpretações autênticas que ressoem com a realidade local. Como afirmou Lima Barreto em 1918: “O Brasil não tem povo; tem público”. Isso talvez ocorra porque muitos brasileiros ainda não se veem representados nos livros considerados universais pela academia.
Fernando Flores é jornalista e estudante no campo da psicologia.