No próximo mês, a jornalista e pesquisadora Clarissa Barcellos levará ao Weltmuseum Wien, em Viena, Áustria, um trabalho que explora a memória, ancestralidade e religiosidade afro-brasileira presente na comunidade da Serrinha, localizada em Madureira, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Sua apresentação faz parte da conferência internacional sobre Arte e Espiritualidade na Diáspora Negra, programada para ocorrer entre os dias 22 e 24 de abril de 2026.
Intitulada “Imperiosa Serrinha: uma etnografia sobre memória e ancestralidade no ofício de Tia Ira Rezadeira”, a pesquisa foca na vida de Iraci Cardoso dos Santos Lino, popularmente conhecida como Tia Ira Rezadeira. Com 89 anos, ela é reconhecida como uma das principais referências culturais e espirituais da Serrinha, possuindo vasto conhecimento em práticas relacionadas à reza, parto e às tradições religiosas e culturais de origem africana.
Tia Ira carrega um legado iniciado por Maria Joana Monteiro, também chamada Vovó Maria Joana Rezadeira (1902-1986). Natural do interior de Valença, no Vale do Café fluminense, ela se estabeleceu na Serrinha no início do século XX e foi uma das pioneiras da região. Vovó Maria Joana desempenhou papéis significativos dentro da comunidade como líder de Umbanda, parteira, jongueira e rezadeira. Ela também foi uma das fundadoras da GRES Império Serrano e ficou famosa por ser mãe espiritual da cantora Clara Nunes.
A pesquisa realizada por Clarissa Barcellos foi fundamentada em um trabalho etnográfico realizado no local. O estudo abrange rituais, festividades e métodos de transmissão de saberes que fazem parte do cotidiano da Serrinha. Foram coletadas entrevistas e documentadas celebrações dedicadas aos pretos-velhos, além do tradicional Amalá de Xangô, que acontece anualmente na Pedreira de Xangô, localizada no alto do morro.
A conferência em Viena contará com a presença de pesquisadores, artistas e líderes religiosos e culturais provenientes de diversas partes do mundo. O objetivo é abordar as interações entre arte, espiritualidade e memória nas culturas da diáspora negra.
Clarissa Barcellos destaca a importância de evidenciar como as práticas culturais e espirituais afro-brasileiras continuam a influenciar a formação da memória coletiva, sociabilidade e identidade comunitária nas áreas periféricas do Rio. “Tia Ira representa uma griô, uma guardiã da memória. Esses saberes vão além das expressões de fé; eles também constituem formas de resistência política e produção de conhecimento. Manter vivas essas narrativas é um ato contra o apagamento histórico e o racismo religioso e epistêmico. As rezadeiras, os rituais e as celebrações religiosas nas comunidades negras preservam conhecimentos ancestrais que raramente são registrados na história oficial”, afirma.