O trágico acidente que resultou na morte de Emanoelle e Francisco na Tijuca ainda ressoa em uma cidade marcada pelo caos no trânsito, afetando especialmente os usuários de transporte sobre duas rodas. Mãe e filho foram atropelados por um ônibus enquanto utilizavam uma bicicleta elétrica. O Rio de Janeiro, em estado de choque, parece envolto em uma nuvem de desesperança em relação à criação de um trânsito mais humano, diante de uma realidade confusa onde ciclistas e veículos motorizados disputam espaço, agravada pela falta quase completa de regulamentação.
A luta para conter esse flagelo, que afeta principalmente ciclistas e motociclistas, demanda ações imediatas por parte das autoridades e dos legisladores. Segundo o Código de Trânsito, ciclomotores não deveriam transitar nas ciclovias, mas sim nas laterais das vias com limite de até 40 km/h. Contudo, a maioria das ruas no Rio possui limites que variam entre 50 e 90 km/h. Isso levanta um ponto crucial: é urgente a necessidade de reduzir a velocidade nas vias urbanas para salvaguardar vidas, algo que deve ser feito através de legislação federal. O recente decreto do prefeito Eduardo Cavaliere proíbe o tráfego de veículos nas calçadas, mas ao proibir ciclomotores, bicicletas e patinetes elétricos em vias com velocidade superior a 60 km/h, praticamente inviabiliza a circulação desses meios na cidade. É difícil acreditar que essa medida será eficaz.
No cenário nacional, o Projeto de Lei 2789/2023 aborda o cerne da questão: estabelece um limite máximo de 50 km/h para as vias arteriais ao modificar o Código de Trânsito Brasileiro. Essa proposta não é radical; pelo contrário, alinha-se a práticas bem-sucedidas já implementadas em cidades com forte cultura cicloviária, como as da Holanda. Controlar a velocidade representa o primeiro passo para tornar o trânsito mais humano. A sociedade anseia por mais bicicletas nas ruas e restringir seu uso não é uma solução justa nem razoável.
Além disso, existem outras questões importantes a serem consideradas, como a conscientização dos usuários de bicicletas elétricas e a evidente falta de investimentos em ciclovias e ciclofaixas no Rio. Nos últimos quatro anos, apenas 47 km de novas faixas foram implantadas, uma quantidade claramente insuficiente. Dados do Corpo de Bombeiros indicam um crescimento alarmante de 244% nos acidentes envolvendo esses veículos entre 2024 e 2025 na cidade. É comum observar condutores transitando em calçadas ou na contramão, muitas vezes com veículos modificados que conseguem ultrapassar os 60 km/h.
O Rio precisa definir qual tipo de cidade deseja ser: uma onde a pressa se sobrepõe à vida ou uma onde todos possam exercer seu direito de ir e vir com segurança. Sem medidas que reduzam as velocidades permitidas, regulamentem os veículos elétricos e reforcem a fiscalização, novas tragédias podem se tornar não apenas frequentes, mas rotineiras — algo que não pode ser aceito como normal.