Home NotíciasEmanuel Alencar: A Iluminação e o Inusitado do Edifício Espigão

Emanuel Alencar: A Iluminação e o Inusitado do Edifício Espigão

por Amanda Clark

Um erro disfarçado continua a ser um erro. Este provérbio me veio à mente ao ler uma matéria de O Globo que apresentava o projeto de um edifício que irá acomodar pequenas quitinetes na Praça Mário Lago, localizada no Centro do Rio. O espaço, que conta com mais de 40 árvores, deverá abrigar 20 andares (e não 24 como se mencionou anteriormente), totalizando 624 apartamentos sem vagas para carros (em vez de 720), além de quatro estabelecimentos comerciais. No entanto, essa mudança estética não altera a essência problemática do projeto.

A revitalização do Centro deve priorizar a ocupação das inúmeras unidades que estão abandonadas há anos. Tanto o Estatuto das Cidades quanto a Constituição Federal destacam que a função social da propriedade é um princípio fundamental a ser respeitado. É possível e necessário adensar a região central da cidade, mas isso deve começar pela valorização dos espaços já existentes e subutilizados. A construção de novos edifícios em uma área saturada de concreto só agrava os problemas relacionados às ilhas de calor e à falta de circulação de ar.

É importante destacar que a Patrimar recebeu apoio substancial da Assembleia Legislativa e da Prefeitura do Rio. No final de 2022, o deputado Rodrigo Amorim (PL) tomou a decisão de destombá-la. Eduardo Paes (PSD) nunca se opôs ao projeto e chegou até mesmo a defendê-lo nas redes sociais. Contudo, esses discursos são tão sólidos quanto uma estaca cravada em solo pantanoso. Os defensores do espigão afirmam que ele ajudará a mitigar o déficit habitacional ao oferecer moradia para famílias de baixa renda. Entretanto, sabemos que estúdios com até 35 metros quadrados acabarão sendo direcionados à especulação e aos aluguéis temporários. Essa justificativa não se sustenta.

Com a estátua de Marielle Franco adornando-a, a Praça Mário Lago merece permanecer como um espaço de descanso para os trabalhadores durante sua pausa para o almoço. Em vez de um grande prédio, esse local poderia ser aprimorado pela prefeitura com atividades esportivas, danças e apresentações teatrais. A situação é alarmante.

Se a cidade opta por substituir sombra por concreto e convívio por lucro imediato, não está apenas cometendo um erro no planejamento urbano — está renunciando ao próprio direito à vida na cidade. Proteger a praça é, essencialmente, defender aquilo que ainda temos de espaço urbano.

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