Home NotíciasConspiração Condor’: um bom longa-metragem, mas será que isso é suficiente no Brasil?

Conspiração Condor’: um bom longa-metragem, mas será que isso é suficiente no Brasil?

por Amanda Clark

Existem dois grupos de pessoas com quem prefiro evitar debates sobre cinema: aquelas que desconsideram animações como meras produções infantis e aquelas que veem o cinema brasileiro como um gênero inferior por natureza.

No caso deste segundo grupo, a questão vai além do simples preconceito; reflete uma formação cultural. Ao longo das últimas décadas, o cinema dos Estados Unidos não apenas dominou o mercado global, mas também moldou a forma como o público percebe as produções audiovisuais. O cinema americano transcende o entretenimento, atuando como um veículo de propagação cultural e promovendo um estilo próprio. É nesse contexto que aprendemos a identificar ritmo, estrutura narrativa, momentos cômicos e a construção de clímax.

Quando um filme foge dessas convenções, a reação comum não é a curiosidade, mas sim o estranhamento.

Não é surpreendente que obras como Kokuho, La Grazia e O Agente Secreto enfrentem resistência. Por outro lado, Ainda Estou Aqui, que se comunica mais diretamente com essa gramática cinematográfica, recebeu uma acolhida bem mais rápida tanto no Brasil quanto no exterior. Embora isso não diminua seu valor — o filme é realmente excelente —, sua recepção está conectada à familiaridade do público com suas propostas.

Esse cenário cria um ambiente cruel para os filmes brasileiros. Para serem levados a sério, eles precisam constantemente se provar. Um filme nacional deve ser mais do que bom; ele precisa justificar sua existência. Enquanto um longa-metragem americano mediano passa despercebido, um similar brasileiro é visto como uma prova da suposta inferioridade do cinema nacional.

É nesse contexto desafiador que surge Conspiração Condor. No entanto, ele não apresenta a força necessária para romper essas barreiras.

O enredo se passa em 1976 e gira em torno de Silvana (Mel Lisboa, conhecida por Coisa Mais Linda), uma jovem repórter encarregada de uma coluna de fofocas em um respeitado jornal de São Paulo. Essa escolha é intrigante; colocar uma jornalista do mundo do entretenimento no centro de uma narrativa política cria um contraste interessante entre superficialidade e gravidade histórica.

A trama se inicia durante a cobertura do funeral de Juscelino Kubitschek. Entre entrevistas protocolares, aparece uma mulher que afirma que sua filha estava no ônibus envolvido no acidente que resultou na morte do ex-presidente e insiste que não houve colisão alguma.

A partir desta revelação inicial, o filme desenvolve sua proposta investigativa. Silvana, insatisfeita com seu papel na coluna de fofocas, começa a procurar outros passageiros e descobre inconsistências nas declarações. Testemunhas desaparecem ou mudam seus relatos; algumas até morrem. Coincidências se acumulam a tal ponto que as suspeitas ganham contornos de verdade.

A tensão se intensifica quando, meses depois, João Goulart morre em circunstâncias igualmente questionáveis. Oficialmente atribuído a um infarto, seu falecimento gera dúvidas ainda maiores devido à falta de autópsia — algo que Silvana descobre ter sido solicitado pelo governo brasileiro.

Assim se estabelece a conspiração.

No entanto, após esse ponto crucial, o filme perde clareza sobre suas intenções narrativas.

Em alguns momentos, ele parece apresentar um retrato instigante da prática jornalística durante o regime militar. Mostra-se a redação sob os olhos do censor e os riscos envolvidos em ultrapassar limites impostos pela censura. Em outros trechos, assume características de um thriller investigativo clássico focado na apuração e nas revelações. E ocasionalmente insinua uma terceira camada quase ensaística sobre como figuras de autoridade moldam percepções e manipulam comportamentos — quase como uma hipnose social.

Cada uma dessas abordagens tem seu potencial; contudo, o problema reside na falta de definição clara sobre qual delas seguir. O filme acumula caminhos sem se comprometer com nenhum deles.

Essa indecisão se reflete diretamente na narrativa dramática; as revelações ocorrem sem impacto significativo. O espectador antecipa desenlaces que o roteiro apresenta como surpresas.

Um exemplo claro é o delator que fornece informações sobre Silvana aos militares: assim que sua presença é identificada no enredo, surgem várias possibilidades dramáticas. Poderia recair sobre o censor amigo íntimo dela ou sobre o repórter por quem ela nutre simpatia. Contudo, opta pela solução mais previsível: sua colega antagonista no trabalho.

O problema não está apenas na escolha feita pelo roteiro; há também um desperdício do desenvolvimento anterior das personagens.

Marcela (Maria Manoella), inicialmente apresentada como uma jornalista política experiente marcada pela repressão da época e impaciente com Silvana, em certo momento oferece ajuda ao perceber a importância da investigação da colega e discorre sobre os desafios do jornalismo político sob ditadura — mencionando censura e cortes constantes e evocando casos famosos como Watergate. Aqui surge um aspecto interessante: contextualiza-se o comportamento da personagem enquanto abre espaço para possíveis redempções.

No entanto, essa linha narrativa é abandonada rapidamente ao transformá-la na informante do governo; essa escolha não apenas simplifica demais a trama como esvazia toda complexidade anteriormente construída pelo roteiro.

Soma-se ainda atuações competentes mas pouco memoráveis e uma direção que oscila entre diferentes propostas narrativas sem foco definido. Há falta de decisão clara e hierarquia dramática ao longo do filme.

Se tivesse aprofundado na dimensão jornalística poderia ter construído um retrato mais robusto daquela época; se houvesse abraçado totalmente o thriller poderia ter investido em tensão adequada; se tivesse seguido por uma abordagem psicológica poderia explorar melhor as temáticas da manipulação social. Havia espaço para radicalizar essa proposta ao criar diálogos mais diretos com referências citadas no próprio filme como The Manchurian Candidate. Ao tentar abarcar tudo isso simultaneamente entrega muito pouco em cada aspecto explorado.

Ainda assim é importante colocar Conspiração Condor em perspectiva: ele não pode ser considerado um desastre total. O filme mantém algum nível de interesse e parte de premissas sólidas embora frequentemente indique direções mais interessantes do que realmente segue. A questão neste contexto específico é que isso pode não ser suficiente para conquistar atenção significativa.

O longa-metragem não rivaliza com os grandes sucessos cinematográficos do ano nem chega perto da profundidade emocional vista em Hamnet ou no impacto gerado por Sinners; porém também não fica muito atrás de filmes estrangeiros medianos como A Empregada ou Truque de Mestre — obras essas que enfrentam bem menos resistência junto ao público.

E talvez esse seja o aspecto mais incômodo: caso Conspiração Condor fosse internacional provavelmente seria considerado apenas um thriller mediano para sessões descontraídas no fim de semana; sendo brasileiro ele transforma-se em mais um teste a ser superado pelo espectador.

Nesse teste específico ele não reprovou totalmente—mas também não se destacou positivamente. Se houver outro Ainda Estou Aqui neste ano certamente este não será seu lugar.

Avaliação: 3/5

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