Home NotíciasConferência na UFRJ discute propostas de favelas e periferias para fortalecer políticas públicas

Conferência na UFRJ discute propostas de favelas e periferias para fortalecer políticas públicas

por Amanda Clark

A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e o Instituto BR uniram forças para criar o projeto Favelas e Periferias pelo Direito à Vida, que resultou na elaboração de 87 propostas elaboradas por líderes comunitários. Essas propostas servirão como base para políticas públicas direcionadas ao Poder Executivo, com foco em favelas e periferias do Rio de Janeiro. A conferência intitulada Favela, Vida e Direitos ocorreu neste domingo (12/04) no Auditório Horta Barbosa da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), encerrando um processo formativo que capacitou centenas de mobilizadores locais e reconheceu as favelas como territórios que geram soluções, redes de apoio e resistência. Três projetos principais orientaram as atividades: o Cria Saúde, dedicado à formação de agentes populares em saúde; o Plantando Saúde, que incorporou conhecimentos tradicionais de comunidades quilombolas e religiosas ao Sistema Único de Saúde (SUS); e o Impulso de Gerações, que se concentrou na produção de memória, cultura e direitos intergeracionais. Essas ações reuniram aproximadamente 550 moradores de áreas como Jacarezinho, Rio das Pedras, Cidade de Deus, Praça Seca, Maré, Manguinhos, Rocinha, Complexo do Alemão, São João de Meriti, Duque de Caxias, Guapimirim, Magé e Nova Iguaçu. Todos os projetos foram viabilizados por meio de emendas parlamentares destinadas ao financiamento de bolsas e profissionais envolvidos nas atividades. O deputado federal Lindbergh Farias, idealizador do projeto, participou da conferência e destacou a relevância da iniciativa para valorizar as soluções criadas pelas próprias comunidades. “Decidimos investir as verbas das emendas parlamentares em um trabalho formativo para fomentar novas lideranças nas favelas do Rio. É essencial contar com ativistas locais que debatam questões importantes e mobilizem mais pessoas em defesa dos seus territórios. O poder deve ser exercido a partir da base”, enfatizou. Durante o evento, Lindbergh expressou sua satisfação com os resultados obtidos até então e anunciou a continuidade das ações. “Esse projeto iniciado na Fiocruz precisa se transformar em um programa nacional para alcançar mais pessoas e gerar impacto em todo o país”, concluiu.

Formação colaborativa das propostas

A fase preparatória do projeto incluiu uma pré-conferência realizada ao longo de três dias na Unisuam, localizada em Bonsucesso. No dia 28 de fevereiro, o eixo Cria Saúde promoveu um encontro entre moradores e pesquisadores para discutir a saúde integral nas periferias. Em 2 de março, a iniciativa Plantando Saúde reuniu líderes de comunidades tradicionais e religiões afro-brasileiras. Por sua vez, no dia 7 de março, o Impulso de Gerações articulou a participação de agentes culturais e representantes comunitários.

Durante esse período pré-conferencial foram formados Grupos de Trabalho (GTs) que aprofundaram os debates sobre temas relevantes utilizando diagnósticos locais como base para desenvolver soluções adaptadas aos diferentes contextos territoriais. Os encontros resultaram na elaboração das 87 propostas organizadas em dez temas principais: saúde mental, habitação, saneamento básico, cultura e combate à violação dos direitos humanos.

Márcia Souza, uma das mentoras do projeto Impulso de Gerações – que envolve 250 moradores nas comunidades da Cidade de Deus, Maré e Manguinhos – comentou sobre o impacto significativo da iniciativa nos territórios: “Isso tem proporcionado um grande desenvolvimento pessoal aos envolvidos e transformado suas percepções sobre o valor do trabalho deles ao reconhecer expressões culturais que antes eram ignoradas”.

O historiador Marú, quilombola atuante no projeto Cria Saúde em Rio das Pedras – uma área latifundiária ocupada desde os anos 1960 durante a ditadura militar – explicou a importância do projeto: “O Cria Saúde busca estruturar um futuro melhor para Rio das Pedras, já que essa região ainda não é oficialmente reconhecida como bairro e isso dificulta muito o acesso a políticas públicas essenciais como saúde e saneamento”.

Tainá Cláudio, uma das tutoras do Plantando Saúde desenvolvido na Praça Seca, ressaltou a valorização dos saberes tradicionais: “Esse projeto é crucial para nossa comunidade porque estimula o cultivo de alimentos e ervas medicinais nas nossas hortas comunitárias, promovendo nossa soberania alimentar e fortalecendo nossa ancestralidade”.

As 87 propostas serão compiladas em um documento final que servirá como ferramenta política junto ao poder público com a finalidade de implementar políticas públicas estruturais voltadas para favelas e periferias no estado do Rio de Janeiro.

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