Ontem, pelo Campeonato Brasileiro, presenciamos uma reviravolta incrível: o Vasco venceu o Fluminense por 3 a 2 no Maracanã, mesmo estando perdendo por 2 a 0. Esse confronto adiciona mais um capítulo a uma antiga rivalidade estadual, que nos últimos anos tem se intensificado não apenas dentro de campo, mas também nos bastidores, com disputas entre as diretorias, especialmente em relação ao uso do Maracanã, e questões culturais que alimentam a rivalidade entre os clubes.
No entanto, o aspecto mais interessante dessa discussão está relacionado à mitologia que envolve ambos os clubes. O Vasco, por exemplo, tem buscado se posicionar como uma entidade engajada em causas sociais, especialmente na luta contra o racismo. Esse posicionamento se baseia em parte na história dos Camisas Negras, time campeão de 1923 composto majoritariamente por jogadores negros em um momento crucial para o futebol carioca.
Essa narrativa é evidente em slogans presentes em produtos e na loja oficial do Vasco, como “o legítimo clube do povo”, “a história mais bonita do futebol” e “respeito, igualdade, inclusão”. Embora um desses slogans faça alusão ao Flamengo, como uma forma de contrapor a maior popularidade rubro-negra, também acaba gerando uma rivalidade mitológica com o Fluminense.
É aí que entra o tema central de hoje: a história do pó de arroz associada ao Fluminense.
Há muito tempo circula a ideia de que o Fluminense, por ser considerado um clube elitista, teria tido um jogador negro que utilizava pó de arroz para se passar por branco. Embora o clube tenha historicamente cultivado uma imagem ligada à elite e à nobreza, transformar isso em uma narrativa caricata é um grande equívoco.
Essas histórias absurdas costumam se espalhar rapidamente, principalmente nos dias de hoje com a disseminação de informações pela internet. O problema surge quando esses relatos são aceitos como verdades estabelecidas, muitas vezes sem base factual.
Por exemplo, a associação entre pó de arroz e a tentativa de embranquecimento do Fluminense foi popularizada por Mário Filho em seu livro “O Negro no Futebol Brasileiro”. No entanto, Mário Filho, apesar de renomado jornalista, também era conhecido por contar histórias sem respaldo documental.
Além disso, historiadores ligados ao Fluminense apresentam uma versão mais realista da história, sugerindo que o jogador em questão usava o pó de arroz como antisséptico e não como uma tentativa de mudar sua aparência racial.
Entre histórias verdadeiras, distorcidas e inventadas, é evidente que, no futebol, a construção da identidade das torcidas muitas vezes coloca a verdade em segundo plano.