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União Europeia lança estratégia de soberania tecnológica para dominar chips e inteligência artificial

por amandaclark

União Europeia busca independência tecnológica em chips e IA

A União Europeia apresentou um ambicioso plano para fortalecer sua autonomia tecnológica e reduzir a dependência de fornecedores americanos e asiáticos. A Comissão Europeia anunciou uma série de medidas voltadas para expandir as cadeias domésticas de suprimento em áreas críticas como semicondutores, inteligência artificial e computação em nuvem, buscando consolidar a chamada soberania tecnológica europeia.

O plano representa uma mudança significativa na postura do bloco europeu, que historicamente dependeu de empresas estrangeiras para suas necessidades tecnológicas. Com o retorno de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos e a intensificação das tensões geopolíticas, a Europa intensificou seus esforços para garantir maior controle sobre infraestruturas tecnológicas críticas.

Lei de Desenvolvimento de Nuvem e Inteligência Artificial

O elemento central do novo pacote é a Lei de Desenvolvimento de Nuvem e IA (CADA), que pretende triplicar a capacidade instalada europeia de centros de dados nos próximos cinco a sete anos. Atualmente, o mercado europeu de computação em nuvem é dominado por empresas americanas, com Amazon Web Services, Microsoft Azure e Google Cloud controlando mais de 70% do mercado da União Europeia.

A legislação proposta exigiria que governos armazenem dados críticos exclusivamente em serviços de nuvem controlados por empresas europeias, implementando avaliações obrigatórias de risco de soberania para todos os fornecedores. Esta medida protegeria informações sensíveis de legislações estrangeiras, especialmente do Cloud Act americano, que autoriza autoridades dos EUA a acessar dados armazenados por empresas americanas, independentemente da localização física dos servidores.

Classificação em níveis de soberania

Os provedores de nuvem serão classificados em uma escala de quatro níveis de soberania, baseada no grau de controle europeu sobre seus serviços, cadeia de suprimentos, processamento de dados e infraestrutura física. Algumas grandes empresas tecnológicas já se anteciparse a essas regras mais rígidas. O Google estabeleceu parceria com a francesa Thales para criar a joint venture S3NS, que foi selecionada como uma das quatro empresas autorizadas a fornecer serviços de nuvem para instituições da UE. Microsoft e Amazon também lançaram soluções de nuvem soberana na Europa.

Reformulação da Lei dos Chips

O pacote inclui uma reformulação significativa da Lei dos Chips, criada em 2023 para responder à escassez global de semicondutores durante a pandemia de Covid-19. A versão anterior buscava ampliar a participação europeia na produção mundial, mas o órgão de auditoria da União Europeia alertou que o bloco dificilmente alcançará sua meta de dobrar a participação de mercado até 2030.

A nova versão, intitulada Chips Act 2.0, permitirá que a Comissão Europeia invista diretamente em grandes projetos transfronteiriços de semicondutores, oferecendo às empresas uma forma simplificada de obter financiamento público. A Comissão estima que serão necessários €120 bilhões (US$ 139 bilhões) em investimentos públicos e privados até 2035 para revitalizar a indústria europeia de semicondutores.

Software de código aberto e sustentabilidade energética

Além das iniciativas em nuvem e chips, o pacote de soberania tecnológica incentiva a adoção de softwares de código aberto desenvolvidos na Europa e estabelece planos para integrar novos centros de dados e fábricas de IA de forma sustentável às redes elétricas do bloco.

A Europa possui algumas empresas líderes mundiais em tecnologia específicas. A holandesa ASML é a única produtora das máquinas de litografia mais avançadas do mundo, essenciais para fabricar semicondutores de ponta, incluindo os aceleradores da Nvidia utilizados em data centers. Porém, a presença europeia nas cadeias globais de software e hardware permanece significativamente menor comparada aos Estados Unidos e à Ásia.

Desafios e riscos da iniciativa europeia

Apesar das ambições do plano, especialistas apontam desafios consideráveis. A União Europeia insiste que a iniciativa não deve ser interpretada como protecionista, afirmando que soberania tecnológica não significa isolamento. No entanto, regras que excluam fornecedores estrangeiros podem criar escassez de tecnologias críticas se as alternativas europeias não atingirem a mesma capacidade ou alcance.

Há risco também de retaliações comerciais dos Estados Unidos e China. O governo americano já criticou duramente outras regulamentações da UE, como a Lei de Serviços Digitais, e chegou a ameaçar retaliações. Analistas alertam que a Europa não possui escala suficiente para dominar toda a cadeia de inteligência artificial como fazem Estados Unidos e China, podendo enfrentar saídas de grandes empresas de tecnologia.

Outro obstáculo significativo é a lentidão do processo decisório europeu. As propostas de soberania tecnológica sofreram vários adiamentos, e ainda precisarão passar por diversas rodadas de negociação entre governos e Parlamento Europeu antes da aprovação final. Líderes europeus reconhecem que construir alternativas tecnológicas credíveis será um processo longo e complexo, com resultados significativos esperados apenas a partir de 2030.

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