Mesmo com desempenho considerado insatisfatório pelo Ministério da Educação (MEC), cursos privados de medicina no Rio de Janeiro e em outras regiões do país mantêm mensalidades que ultrapassam os R$ 15 mil. No estado, três das dez universidades com piores notas no Exame Nacional das Escolas Médicas (Enamed) pertencem ao Grupo Afya, maior grupo privado de ensino médico do país, incluindo a unidade do Rio de Janeiro, que cobra R$ 15,8 mil por mês.
Afya lidera lista de cursos caros e mal avaliados no Rio
O levantamento revela que, das dez piores notas do Enamed no Rio, três são de instituições controladas pela Afya: Afya Universidade Unigranrio (Rio de Janeiro), Duque de Caxias e Itaperuna. A unidade da capital fluminense é a mais cara do estado entre as mal avaliadas, com mensalidade acima de R$ 15 mil. O curso recebeu nota 2 no Enamed, com 56,2% de proficiência, índice próximo do mínimo exigido para a nota 3, o que o enquadra nas punições mais brandas, como a proibição de ampliar vagas.
Além das unidades da Afya, a lista das dez piores do Rio inclui outras instituições privadas, que também cobram mensalidades elevadas, em geral acima de R$ 11 mil, apesar de notas 1 ou 2, consideradas insuficientes pelo MEC.
Fundado em 1999, o Grupo Afya se consolidou como o maior do país na área de ensino médico e passou a atuar no Rio em 2021, após a compra do complexo Unigranrio, criado em 1970. Em nota, a empresa afirmou que o Enamed “não pode ser interpretado isoladamente” e justificou os valores cobrados com base na infraestrutura e na atuação assistencial.
Segundo a Afya, o grupo mantém seis centros de simulação, realizou cerca de 3.000 publicações científicas internacionais em 2024 e contabiliza mais de 3 milhões de atendimentos gratuitos desde 2019, em parceria com o SUS (Sistema Único de Saúde). A empresa também afirmou que os resultados do Enamed divulgados nesta semana divergem de dados previamente disponibilizados pelo MEC em dezembro de 2025 no sistema e-MEC, que teriam sido retirados do ar e republicados posteriormente com números diferentes.
Cursos reprovados chegam a R$ 17 mil no país
O cenário se repete em outras regiões do Brasil. Dados mostram que quase todas as 87 instituições privadas mal avaliadas no Enamed cobram mensalidades superiores a R$ 10 mil. Em alguns casos, os valores chegam a R$ 17 mil.
A Universidade Brasil, em Fernandópolis (SP), por exemplo, cobra R$ 11,2 mil nos quatro primeiros semestres do curso de medicina, mas o valor sobe para R$ 17,3 mil nos quatro últimos — com possibilidade de redução para R$ 13,9 mil em caso de pagamento antecipado. A instituição recebeu nota 1 no Enamed, com apenas 35,9% de proficiência. Procurada, afirmou que trabalha para melhorar a qualidade do ensino e pediu revisão da nota.
Em Manaus, a Fametro cobra mensalidade base de R$ 10,9 mil, mas a primeira parcela para alunos ingressantes em 2025 chegou a R$ 20,9 mil. O curso também obteve nota 1, com 38,9% de proficiência. A instituição não respondeu aos questionamentos da reportagem.
Privadas dominam lista das 100 reprovadas
Entre as 100 instituições com pior desempenho no Enamed (notas 1 e 2), a ampla maioria é privada. Das 24 faculdades que tiraram nota 1, 17 são particulares. Já entre as 83 com conceito 2, 72 pertencem à iniciativa privada. No total, quase 90% das instituições reprovadas são privadas, enquanto as públicas representam uma parcela bem menor da lista.
O desempenho varia de forma significativa conforme o tipo de mantenedor. As instituições municipais apresentaram os piores resultados proporcionais: 37,5% ficaram com nota 1 e 50% com nota 2. Na sequência aparecem as privadas com fins lucrativos, com 11,5% das instituições na nota 1 e 46,9% na nota 2.
Na outra ponta, as universidades federais e estaduais concentraram as melhores avaliações. As federais tiveram 61,3% de seus cursos com nota 4 e 26,3% com nota 5. Já as estaduais registraram o melhor desempenho geral: 86,6% alcançaram conceito satisfatório e nenhuma ficou com nota 1.
Exame, punições e reação do CFM
Criado pelo Inep, o Enamed avalia o percentual de estudantes que atingem o mínimo de proficiência nas áreas centrais da medicina, como clínica geral, cirurgia, ginecologia e obstetrícia, pediatria, saúde mental e saúde coletiva. Cursos com notas 1 ou 2 — abaixo de 60% de proficiência — podem sofrer sanções que vão desde a proibição de abrir novas vagas até restrições ao Fies e ao Prouni, e, em casos extremos, o descredenciamento.
Mais de 89 mil pessoas participaram do exame, sendo cerca de 39 mil concluintes. No total, 75% dos estudantes alcançaram ao menos a nota 3. Em números absolutos, quase 30 mil participantes eram de instituições privadas, contra 6.502 de federais, 2.402 de estaduais e 944 de municipais.
Para o presidente do Conselho Federal de Medicina (CFM), José Hiran Gallo, os resultados são alarmantes. “São 13.871 graduados em medicina que receberão diploma e registro para atender a população sem competências mínimas para exercer a medicina. Isso coloca em risco a saúde e a segurança de milhões de brasileiros”, afirmou.
O governo federal estuda ainda enviar ao Congresso um projeto de lei para que o resultado do Enamed conste no diploma dos formandos, em meio ao debate sobre a criação de uma espécie de “OAB da Medicina”, proposta defendida por entidades médicas e que prevê uma avaliação externa ao MEC.