O Rio de Janeiro abriga uma camada histórica que escapa aos clichês dos cartões-postais e das discussões superficiais sobre degradação ou renovação. Trata-se da fundadora, a fase em que a cidade começava sua construção, com fé das irmandades, o poder dos vice-reis e a habilidade dos artesãos. Nesse contexto emergiu Mestre Valentim, considerado um dos primeiros grandes artistas a conceber o espaço público carioca como uma verdadeira obra de arte, além de ser reconhecido por sua delicada contribuição à arte sacra no Centro.
Valentim da Fonseca e Silva, nascido por volta de 1745, representa um destino genuinamente brasileiro, mesmo antes da formação do Brasil como nação: era pardo, fruto de um pai português e mãe africana. Embora tenha se formado no ambiente luso-brasileiro, sua realização ocorreu na América. Estudos recentes indicam que sua trajetória vai muito além de ser apenas um artesão. A pesquisadora Ana Maria Fausto Monteiro de Carvalho analisou essa dimensão civil e urbana de seu trabalho em sua dissertação na Escola de Belas Artes da UFRJ e no livro “Mestre Valentim”, demonstrando como ele uniu elementos como sombra, água e beleza em seu projeto para a cidade.
No entanto, antes de se destacar como artista responsável pelos chafarizes e pelo Passeio Público, Valentim teve forte ligação com as igrejas. Essa conexão transforma sua imagem; ele não era um urbanista distante, mas alguém vindo do universo das irmandades católicas, das capelas e da arte sacra que entrelaçava o belo ao sagrado e à identidade da cidade.
A pesquisadora Amanda Ramos da Silva destaca que Mestre Valentim integrou a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos. Desde 1772, seus vínculos o aproximaram da Venerável Ordem Terceira de Nossa Senhora do Monte do Carmo, situada na antiga Rua Direita (hoje Primeiro de Março). Sua oficina localizava-se próximo à Rua do Sabão, em uma área periférica ao centro antigo, mas suficientemente próxima para atender ao núcleo religioso e garantir sua alta produtividade em arquitetura e talha.
A Igreja da Venerável Ordem Terceira de Nossa Senhora da Conceição e Boa Morte (recentemente mencionada na mídia devido a uma organização criminosa vinculada à sua administração) é fundamental para essa narrativa. Poucas igrejas no Centro refletem tão claramente a intersecção entre devoção, irmandade e arte. O Iphan informa que essa irmandade surgiu da fusão entre a antiga Irmandade de Nossa Senhora da Conceição e a Irmandade de Nossa Senhora da Assunção e Boa Morte. As obras começaram em 1735 sob a supervisão do engenheiro militar José Fernandes Pinto Alpoim.
Dentro desse templo – mutilado pela abertura da Avenida Central ao longo dos anos – reside uma das contribuições mais significativas de Mestre Valentim. O altar-mor é revestido com talhas atribuídas ao artista, assim como a portada datada de 1758 também leva seu nome. O tombamento deste templo inclui todo seu acervo artístico, evidenciando sua importância histórica.
Essa informação é crucial; o altar-mor não é meramente decorativo. Ele é o eixo simbólico do templo onde convergem a liturgia e a catequese visual. Ao esculpir um altar-mor, Mestre Valentim não apenas trabalhava com madeira dourada; ele organizava uma teologia através da arte, moldando o espaço sagrado onde se celebra o sacrifício da Missa e onde as irmandades encontram sua identidade.
No contexto da Conceição e Boa Morte – uma irmandade formada por pardos – essa identidade carrega um peso significativo. A Imaculada Conceição se insere em um universo católico profundo onde a morte não é apenas um fim biológico; trata-se de passagem e esperança. A união dessas invocações reflete uma espiritualidade rara: pureza associada ao descanso final da Mãe de Deus. É nesse cenário repleto de fé que as obras de Valentim emergem não como luxo, mas como um meio de salvação.
O site Sanctuaria menciona que o retábulo do altar-mor foi esculpido por Mestre Valentim, contendo um crucifixo no topo e a imagem da Imaculada Conceição acima do altar. O texto também ressalta que os altares laterais são posteriores e que o portal feito por Valentim exibe a inscrição “Janua Coeli”, ou “Porta do Céu”.
A beleza dessa obra é quase poética; na antiga Rua do Hospício – atualmente dominada pelo movimento intenso da Rua Buenos Aires – Mestre Valentim deixou uma porta evocativa chamada Porta do Céu. Os transeuntes apressados talvez não percebam que ali existe uma chave simbólica importante do antigo Rio: uma igreja dedicada à irmandade, uma devoção mariana acompanhada por uma talha magistralmente executada.
A atuação nas igrejas não foi um episódio isolado na carreira artística de Mestre Valentim. A dissertação defendida por Poliana Martins dos Santos na Unirio revela que peças ligadas ao artista foram encontradas em várias igrejas centrais do Rio, incluindo as ordens religiosas mencionadas anteriormente.
<pAssim sendo, Mestre Valentim não atuou somente para os interesses oficiais da cidade; ele trabalhou para as comunidades devotas que sustentavam capelas e promoviam procissões e missas. Sua obra atendeu àquele Rio onde as igrejas eram centros vitais para amizade comunitária e ascensão social para aqueles marginalizados pela sociedade escravocrata.
Por isso mesmo, sua condição como artista pardo deve ser considerada central para compreender seu legado: ele deixou marcas indeléveis nas igrejas onde as pessoas se reuniam para rezar ou abastecer-se d’água. Seu trabalho representa uma vitória silenciosa sobre os limites impostos pela sociedade em que viveu.
A dimensão religiosa presente em suas criações não exclui a civil; pelo contrário, prepara o terreno para ela. Quando o vice-rei Luís de Vasconcelos decide transformar a lagoa Boqueirão da Ajuda em um jardim público, Valentim já possuía vasta experiência adquirida nos altares e composições simétricas próprias das tradições barroca e rococó das igrejas locais. Assim nasceu o Passeio Público em 1783 – resultado dessa união entre modernidade iluminista e sensibilidade artística.
Amanda Ramos retoma Ana Maria Carvalho ao afirmar que o programa iluminista se consolidou efetivamente com o Passeio Público – considerado o primeiro local dedicado ao lazer carioca – estabelecendo diálogo com o Chafariz das Marrecas. O diferencial aqui é que esse projeto moderno não extinguiu os valores antigos; pelo contrário: transformou as experiências católicas em linguagem aplicada à urbanidade.
O Passeio Público transcendeu seu papel como simples jardim; tornou-se uma nova pedagogia urbana onde insalubridade deu lugar à ordem e abandono à estética cuidadosa. Em um contexto ainda marcado pela lama entre mar e construções coloniais, Valentim proporcionou sombra, água fresca e contemplação – isso representa muito mais do que simples melhorias visuais.
Os chafarizes complementam essa interpretação: desde o Chafariz do Carmo até os Chafarizes das Marrecas e Saracuras – todos exemplificam um artista capaz de unir funcionalidade à beleza estética. A água – essencial para os habitantes daquela época – ganhava forma artística integrada à vida cotidiana dos cariocas.
A pesquisa acadêmica sobre Mestre Valentim reafirma essa dualidade em suas criações; enquanto Ana Maria Carvalho analisa seu papel na construção urbana carioca em “A arte civil de Mestre Valentim”, outras teses exploram aspectos religiosos associados às suas obras.
A Igreja de São Francisco de Paula representa outro importante capítulo nesse legado artístico; estudos contemporâneos examinam as atuações tanto dele quanto Manuel da Cunha na Capela Nossa Senhora das Vitórias dentro desse contexto histórico urbano.
A antiga Igreja São Pedro dos Clérigos também ressoa com referências ao mestre mesmo após ser demolida para abrir caminho à Avenida Presidente Vargas; debates sobre seus retábulos estão presentes nas pesquisas acadêmicas pertinentes à história da arte brasileira.
Dessa forma, existe um traço valentiano presente numa geografia específica: Rua Primeiro de Março, Rua Buenos Aires até Praça XV – formando assim um mapa afetivo repleto das manifestações artísticas ligadas às suas obras no Centro carioca.
No ocaso de sua vida, Mestre Valentim faleceu em 1813 sendo sepultado na Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos no coração do Centro – encerrando sua jornada com emocionante coerência: aquele focado nas irmandades retorna ao seio delas; quem criou formas urbanas permanece guardado junto ao espaço sagrado que ajudou moldar.
Hoje grande parte dessas criações foi perdida ou alterada pela ação humana ao longo dos anos; Avenida Central danificou Conceição-Boa Morte enquanto Avenida Presidente Vargas destruiu São Pedro dos Clérigos; até mesmo Passeio Público já não preserva sua essência original conforme idealizado por seu criador inicial – chafarizes mudaram posições enquanto muitos altares foram desmontados ou transferidos aos museus sem considerar seu valor intrínseco ligado ao culto religioso original.
É justamente nesse cenário caótico que ressurgem as memórias associadas a Mestre Valentim: lembranças vivas mostram-nos que nossa cidade emergiu não apenas através das realizações administrativas modernas mas também através das dimensões culturais profundas enraizadas nas práticas devocionais populares.”
Numa época marcada pela busca incessante por reencontrar identidades perdidas dentro do Centro urbano atual olhar atento voltado ao legado deixado por esse artista nos recorda que Rio soube traduzir fé em arte elevando-a acima mero concreto urbano contemporâneo—artisticamente falando transformações sociais ocorrem através gestos singelos presentes nessa interação contínua entre espaços públicos sagrados cotidianos!