No Leblon, quando um ponto tradicional entra no radar do mercado, é quase que automático. As incorporadoras fazem conta, o metro quadrado dispara e o bairro para pra observar (ou, quem sabe, lamentar a perda de parte da sua identidade). Mas, desta vez, a história da Confeitaria Rio-Lisboa ganhou um ingrediente extra: o vizinho, também do ramo dos pães e bolos, que entrou na disputa milionária.
O ponto, ocupado há mais de 80 anos por uma das confeitarias mais tradicionais da Zona Sul, está na mira de quatro incorporadoras. Entre elas estão a Itten, TGB Imóveis (do empresário Rogério Chor), a SIG e a Mozak. Mas quem pode estar em vantagem é o empresário Luís Alberto Abrantes, dono da padaria ao lado, a Talho Capixaba, que já detém uma fatia do estabelecimento e, por isso, tem preferência na compra das demais participações.
O mercado lembra imediatamente do que aconteceu com a antiga Padaria Ipanema. O ponto valiosíssimo, cobiçado por incorporadoras, acabou fechando negócio com um empresário do próprio ramo, que manteve a vocação do endereço e reabriu a casa sob nova fase, hoje com fila na porta e status de point gastronômico. No Leblon, a dúvida é se o desfecho será semelhante.
Cada pedaço vale ouro
A Rio-Lisboa fica na Rua Ataulfo de Paiva, eixo mais sofisticado do comércio local, a duas quadras do Posto 12. Em um bairro consolidado, onde praticamente não há terrenos disponíveis para novos empreendimentos, qualquer oportunidade vira ativo estratégico.
Segundo informações, os proprietários pedem cerca de R$ 30 milhões pelo imóvel. Algumas empresas tentam negociar para a faixa de R$ 25 milhões, argumentando que o terreno, com aproximadamente 280 metros quadrados, não poderá ser totalmente aproveitado. Um eventual novo prédio teria que respeitar recuos obrigatórios na entrada, o que impacta a área vendável.
Há divergências no mercado sobre a viabilidade. Um incorporador que analisou o ativo concluiu que, sozinho, o terreno seria limitado e chegou a desistir. Ele calculou que, somados, Rio Lisboa e Atalho valeriam algo em torno de R$ 14 milhões. Já pelo menos três das quatro incorporadoras interessadas entendem que é possível erguer um projeto de pequeno porte, compatível com o gabarito restritivo do Leblon.
Nesse ponto, Abrantes volta a aparecer como peça estratégica. Além de já ter participação na confeitaria, ele controla o imóvel do Talho e unidades em prédios vizinhos, o que poderia ampliar a área total e tornar o projeto mais robusto — seja imobiliário, seja comercial.
Tradição que pesa na balança
Fundada em 1943 por imigrantes portugueses, a padaria atravessou gerações mantendo a arquitetura original e o funcionamento 24 horas. Querida pelos moradores, vai além do básico de padaria, confeitaria e mercearia. O espaço conta com mesas para consumo no local e preserva clássicos que fazem parte da rotina do Leblon, como o pão Petrópolis, o misto quente com ovo e o frango assado com batata bolinha, presença certa nos fins de semana.