Home NotíciasMostra “Ciclo” celebra os 50 anos de Toz na Galeria Movimento, na Gávea

Mostra “Ciclo” celebra os 50 anos de Toz na Galeria Movimento, na Gávea

por Amanda Clark

Na Galeria Movimento, localizada na Gávea, estará em exibição a partir do dia 15 de março de 2026, às 15h, a mostra “Ciclo”, do renomado artista visual Tomaz Viana, conhecido como Toz. A abertura coincide com o seu aniversário de 50 anos e celebra também três décadas de trajetória artística, não se configurando como uma retrospectiva, mas sim como um momento de transição. A curadoria é assinada por Paula Mesquita, apresentando uma série de obras que refletem maturidade, persistência e transformação.

Segundo Ricardo Kimaid, diretor da galeria, a exposição conecta os fios de uma jornada que sempre teve como ponto de partida a rua e como método o risco. “A trajetória de Toz sempre foi marcada por desafios, persistência e liberdade. Acompanhar essa evolução é reconhecer como essas características se traduziram em uma linguagem única, mantendo a mesma potência inicial. ‘Ciclo’ encapsula muitos dos elementos que vi Toz desenvolver ao longo dessas três décadas, a partir de uma relação singular com a forma e o tempo”, destaca Ricardo Kimaid.

O título da exposição vai além de uma simples palavra. Com origem grega, “ciclo” sugere a ideia de um processo contínuo, algo que perdura, retorna, se transforma e nunca chega a um fim concreto. É nessa perspectiva que a mostra é concebida: como um trabalho que olha para o passado sem fazer um balanço completo e vislumbra o futuro sem anunciar rupturas. “A experiência acumulada ao longo do tempo não é apresentada aqui como um julgamento retrospectivo, mas sim como uma passagem”, define Paula Mesquita.

Quem acompanha a trajetória de Toz reconhece suas origens na rua, no grafite e na pulsação que a cidade imprime no corpo. O vocabulário visual do artista se tornou reconhecível pela mistura de gesto, cor e narrativa. Ao longo de três décadas, essa matriz urbana se manifestou em pinturas, esculturas e instalações expositivas sem perder a energia original. Além do Rio de Janeiro, o artista realizou murais, instalações e intervenções específicas em cidades como Paris, Madri e Hong Kong, tendo seus projetos apresentados em locais como a Sede das Nações Unidas, em Genebra.

Um dos elementos-chave de “Ciclo” é a repetição, que se apresenta como disciplina, método e teimosia. Personagens como Nina, Shimu e o Vendedor de Alegria sempre carregaram essa recorrência através de curvas, bolas e círculos. Agora, essa insistência muda de perspectiva: deixa de depender tanto da narrativa figurativa e passa a estruturar o campo visual. É menos sobre contar uma história e mais sobre estabelecer um ritmo.

“Tudo se transforma em círculos para mim. A repetição é parte integrante do meu processo. É através da insistência que as coisas se modificam”, revela Toz.

Em suas pinturas, séries de círculos surgem em campos cromáticos atravessados por linhas dinâmicas, levemente irregulares. Não há rigidez simétrica nem precisão matemática. O gesto é visível, o traço é livre e o erro é incorporado como parte da linguagem. Em meio à repetição, um círculo preenchido emerge, carregando consigo uma memória cromática, como se ali ainda existisse vestígios do passado.

A curadoria aborda essa tensão como um elemento central na produção recente do artista. “O formato circular emerge como uma síntese. Aquilo que antes era representado por personagens se condensa em uma estrutura, sem que a experiência acumulada se perca. Apenas se reorganiza”, afirma Paula Mesquita.

O Vendedor de Alegria, figura central na trajetória de Toz, não desaparece em “Ciclo”. Ele passa por uma transformação. Inspirado nos vendedores ambulantes de bolas coloridas das praias brasileiras, o personagem tem sido desconstruído nos últimos anos até restar apenas o núcleo formal: o círculo. O que antes era representado por um corpo e narrativa agora se torna uma estrutura, abrindo espaço para uma pesquisa mais abstrata e geométrica.

“Essa transição não é uma ruptura, mas sim uma continuidade mais profunda. Está relacionada a um tempo mais longo no ateliê, com mais concentração, reflexão e rigor no processo”, analisa Toz. “Quando eu era mais jovem, queria fazer tudo ao mesmo tempo. Hoje, o ritmo é diferente, o trabalho se tornou mais consciente”.

A pesquisa não se restringe apenas às telas. Em “Ciclo”, os círculos adquirem tridimensionalidade e se transformam em esculturas de meia-esfera, ocupando o chão e as paredes da galeria. A pintura sai do plano e passa a interagir com o espaço e o corpo de quem observa. Há algo presente que remete ao grafite: antes da moldura, o muro; antes do ateliê, a cidade. Essa experiência se converte agora em algo diferente, num diálogo com a tradição construtiva brasileira e com questões exploradas pelo neoconcretismo.

“A investigação formal se estende para além da superfície. O círculo se transforma em corpo, a imagem em objeto, e a geometria deixa de ser apenas uma estrutura racional para se aproximar da experiência”, observa Paula Mesquita.

Essa conexão entre rua, instituição e público em larga escala não é algo novo na trajetória do artista. Em 2023, a exposição “Todas as cores”, uma individual de Toz no Museu de Arte Contemporânea de Niterói (MAC Niterói), atraiu o maior público da história da instituição desde 1996, com mais de 40 mil visitantes.

Ao completar 50 anos, o artista também dedica parte do seu tempo fora do ateliê. Há cerca de dez anos, Toz iniciou um projeto contínuo de formação esportiva voltada para crianças e jovens através do jiu-jitsu: o Projeto Paz, atualmente atuando na região do Salgueiro e em Santa Teresa. “O engajamento social sempre fez parte da minha vida”, comenta Toz. “O grafite me levou a lugares esquecidos pelo poder público e pela sociedade, foi ali que minha arte se desenvolveu. Posteriormente, o jiu-jitsu surgiu como uma via de disciplina e cuidado. A repetição, o respeito e a constância transformam o corpo e a vida”. O artista também colabora com iniciativas como o Instituto Reação, fundado por Flávio Canto.

SERVIÇO
“CICLO”, de Toz
Curadoria: Paula Mesquita
Abertura: 15 de março de 2026, das 15h às 18h
Encerramento: 18 de abril de 2026
Local: Galeria Movimento
Endereço: Rua dos Oitis, 15 – Gávea – Rio de Janeiro
Tel.: (21) 2267-5989 | WhatsApp (21) 97114-3641
Contato: contato@galeriamovimento.com
Instagram: @galeriamovimento
Horário: de terça a sexta, das 11h às 19h; sábados, das 12h às 18h

Postagens relacionadas

Deixe um comentário

Are you sure want to unlock this post?
Unlock left : 0
Are you sure want to cancel subscription?
-
00:00
00:00
Update Required Flash plugin
-
00:00
00:00