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Crescimento de acidentes de moto afeta atendimento hospitalar e retarda procedimentos cirúrgicos no Rio

por Amanda Clark

A situação dos acidentes envolvendo motocicletas no Rio de Janeiro tornou-se um grave problema que transcende as questões de tráfego. O crescimento da frota, o aumento do uso de aplicativos, a falta de fiscalização e a rotina de infrações nas ruas têm gerado consequências diretas nos hospitais públicos: cirurgias eletivas estão sendo adiadas, leitos são ocupados por períodos prolongados e os estoques de sangue frequentemente se tornam críticos.

Apesar das iniciativas como o Maio Amarelo, que visa diminuir a quantidade de mortes e acidentes no trânsito, os índices continuam a subir. Motocicletas, ciclomotores e veículos semelhantes figuram entre as principais causas do aumento no número de vítimas graves atendidas nas redes públicas de saúde municipal e estadual.

No Hospital Municipal Miguel Couto, localizado no Leblon, a realidade é visível tanto nos corredores quanto nas enfermarias. Pacientes que sofreram acidentes de moto esperam por cirurgias ortopédicas enquanto lidam com a chegada constante de emergências. Casos mais graves podem levar ao remanejamento de procedimentos já agendados.

Rodrigo Prado, secretário municipal de Saúde do Rio, destaca que a pressão sobre o sistema é intensa. “Os acidentes de trânsito deixaram de ser apenas uma questão relacionada ao transporte e passaram a representar um desafio para a saúde pública”, afirma.

Ele ressalta que a maioria dos acidentados atendidos na rede municipal envolve motocicletas. “Sete em cada dez acidentados que chegam à nossa rede são motociclistas”, completou o secretário.

O estado do Rio registrou mais de 67 mil internações decorrentes de acidentes com motos nos últimos dez anos.

Dados provenientes do DataSUS, obtidos pelo Grupo IAG Saúde e pela Planisa, revelam que entre 2015 e 2025, 1.736 pessoas perderam a vida em decorrência de acidentes com motocicletas no estado. No mesmo intervalo, foram contabilizadas 67.180 internações nas unidades públicas fluminenses.

Somente em 2025, houve 10.106 hospitalizações relacionadas a acidentes com motos, o que equivale a um paciente internado a cada hora.

A cidade do Rio contabilizou 1.545 internações em 2025, seguida por São Gonçalo com 1.230 registros. Todos os 92 municípios fluminenses tiveram pelo menos um paciente internado devido a acidentes envolvendo motocicletas.

A Secretaria Estadual de Saúde informa que os custos associados a essas internações nas redes públicas alcançaram R$ 97 milhões entre 2019 e 2026. Com base nas estimativas do IAG Saúde e da Planisa, o custo total para essa década pode chegar à marca dos R$ 850 milhões, com um custo médio por internação em torno de R$ 12.340,99.

As emergências têm forçado as cirurgias eletivas para datas posteriores.

O impacto mais expressivo pode ser observado na rotina dos hospitais. Com a chegada constante de vítimas graves às emergências, é necessário priorizar o atendimento imediato, resultando no adiamento até mesmo das cirurgias eletivas previamente agendadas.

Rodrigo Prado explica que essa combinação entre traumas severos, demanda por transfusões sanguíneas e tempo prolongado de internação afeta significativamente a organização dos hospitais. “O número de emergências aumenta e precisamos reduzir as cirurgias eletivas, fazendo com que os pacientes permaneçam internados por mais tempo”, afirmou.

O secretário também observa que em algumas situações há estrutura disponível para atender aos pacientes; porém, a falta de sangue pode impedir a realização dos procedimentos programados. “Às vezes temos salas e profissionais prontos, mas não temos sangue suficiente disponível para atender às emergências, sendo necessário adiar cirurgias eletivas”, acrescentou.

No Hospital Estadual Alberto Torres (Heat), situado em São Gonçalo e reconhecido por sua excelência em trauma complexo, o cenário é semelhante ao observado em outras unidades. Nos primeiros quatro meses deste ano, as internações decorrentes de acidentes aumentaram em 30% em comparação ao mesmo período do ano anterior; aproximadamente 80% desses pacientes eram motociclistas ou passageiros.

Marcelo Pessoa, coordenador do Centro de Trauma do Heat, menciona que esses casos frequentemente requerem intervenções cirúrgicas complexas e longos períodos hospitalares. “Esses pacientes geralmente apresentam quadros graves necessitando não só de cirurgia mas também várias transfusões sanguíneas”, explicou ele.

Certa vez, um único paciente acidentado precisou utilizar 20 bolsas de sangue durante seu atendimento recente.

Diante dessa pressão crescente sobre os serviços hospitalares, dois hospitais municipais na cidade implementaram alas ortopédicas exclusivas para tratar vítimas envolvidas em acidentes com motos: o Hospital Municipal do Andaraí e o Hospital Municipal Barata Ribeiro na Mangueira contam agora com um total de 62 leitos dedicados especificamente para esse tipo de atendimento.

No Hospital Miguel Couto também se nota uma predominância significativa das vítimas motociclísticas na rotina diária da unidade. Cristiano Chame, diretor do hospital, relata que cinco dos sete pacientes internados numa enfermaria recentemente eram vítimas desse tipo de acidente.

A explicação está relacionada à natureza dos traumas gerados pelos acidentes com motos: fraturas múltiplas e lesões extensas frequentemente demandam cirurgia ortopédica intensiva e prolongada utilização dos recursos hospitalares. Muitos desses pacientes ficam internados por semanas ou até meses, reduzindo assim a rotatividade dos leitos disponíveis.

A fiscalização nas ruas continua sendo um ponto crítico no combate aos acidentes com motos.

No cenário urbano carioca, infrações envolvendo motocicletas permanecem comuns. Avanços em sinais vermelhos, circulação na contramão e manobras perigosas têm sido relatadas por residentes em diversos bairros da cidade.

Moradores têm exigido maior presença das autoridades responsáveis pela fiscalização do trânsito. Horácio Magalhães, presidente da Sociedade Amigos de Copacabana critica: “Ainda estamos sem guardas atuando nas ruas; quando aparece uma viatura é algo raro”.

A presidente da associação dos moradores de Botafogo também manifestou preocupação acerca da falta efetiva de controle no bairro: “Não tenho conhecimento da atuação direta da Guarda Municipal no trânsito local”.

A Prefeitura do Rio divulgou que entre janeiro e abril deste ano foram aplicadas 168.174 multas pela Guarda Municipal; estacionar irregularmente sobre calçadas foi apontada como a infração mais comum registrada. O município garante que toda equipe está apta para atuar na fiscalização visando melhorar tanto o fluxo quanto o comportamento civilizado no trânsito.

Crescimento das denúncias sobre irregularidades relacionadas às motos também tem sido observado.

O Disque-Denúncia notou um aumento significativo nas reportagens sobre delitos relacionados ao trânsito; nos primeiros quatro meses deste ano foram registradas 823 denúncias – um salto comparativo aos 648 relatos do mesmo período anterior – representando uma alta percentual equivalente a 27%. As denúncias específicas quanto às motos subiram para 325 relatos este ano contra os anteriores 276 – uma variação positiva na ordem dos 17,8%. Essas reclamações incluem desde pegas perigosos até condução inadequada com crianças ou veículos utilizados por indivíduos armados.

Marcelo Pessoa alerta que os números crescentes relacionados aos acidentes superaram as capacidades operacionais da rede hospitalar atual: “Em meio à violência crescente no trânsito vivemos momentos críticos onde frequentemente faltam recursos”, conclui ele.”

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