Uma Atriz em Busca de Equilíbrio e Autenticidade
Taís Araujo descalça, em seu pijama branco de seda, prepara cuidadosamente seu almoço enquanto seus cães circulam pela cozinha. É uma quinta-feira à tarde e a atriz já completou uma jornada intensa: acordou cedo para levar os filhos à escola, realizou sessões de musculação, spinning, massagem e fonoaudiologia, além de estudar cada linha de seu texto para a peça “Mudando de Pele”, que segue em cartaz até 24 de abril no Teatro Sesc Ginástico, no Centro do Rio de Janeiro, sob a direção de Yara de Novaes.
A dedicação obsessiva ao projeto teatral não é casual. Ao iniciar a temporada, Taís decidiu que os dias de apresentação seriam integralmente reservados à preparação para subir ao palco e à logística de seus filhos, João Vicente e Maria Antonia. Essa escolha reflete uma transformação profunda em sua forma de trabalhar: ela decidiu impor limites às outras demandas, incluindo as dezenas de campanhas publicitárias que estrelaria.
Teatro como Caminho de Resposta e Renovação
A atriz, aos 47 anos, reconhece o teatro como seu verdadeiro refúgio artístico. “O teatro é o projeto mais importante da minha vida esse ano”, afirma com convicção. Durante sua carreira, ela sempre recorreu aos palcos nos momentos de crise, encontrando ali respostas que o audiovisual não conseguia fornecer.
Ficou longe dos palcos por cinco anos — desde “Topo da montanha” (2016), uma produção que lotou teatros durante cinco anos sob a direção de seu marido, Lázaro Ramos. Esse hiato não foi escolha, mas necessidade de equilibrar a maternidade com as demandas de telenovelas e projetos audiovisuais. A volta agora representa um reencontro com sua vocação primordial.
Superando Críticas e Redefinindo Carreiras
Quando terminou “Viver a Vida” em 2009, Taís estava “super mexida”. Enfrentou críticas severas por sua interpretação de Helena, passando por um período que ela descreve como “complicado”, quando questionava se queria continuar sendo atriz. Anos depois, reconhece esse período como o mais importante de sua vida.
Após “Cheias de Charme”, um sucesso retumbante que não a respondia emocionalmente, ela mergulhou em “Caixa de Areia” (2013). Ali, trabalhou com Jô Bilac em um projeto pequeno onde todos criavam juntos. “É isso! Me reencontrei com a minha vocação”, lembra ela, que soma 13 peças em seu currículo.
Liberdade Artística e Autoconsciência
Com a conclusão de “Vale Tudo”, Taís se deparou com uma consciência diferente: conquistou muito e ainda tem vasto horizonte pela frente. “Pensei: ‘Conquistei tantas coisas e só tenho 47 anos'”. Essa realização trouxe tanto liberdade quanto incerteza.
“Posso fazer tudo, inclusive nada. Podia não querer mais trabalhar, ficar viajando, estudando”, reflete ela. Mas sua natureza inquieta a impulsiona constantemente. Foi o teatro, mais uma vez, que iluminou seu caminho, oferecendo um projeto que a desafiasse artisticamente.
“Mudando de Pele” e a Identidade de Mulheres Negras
O texto de Amanda Wilkin gira em torno de Mayah, uma mulher em busca de sua identidade, presa num relacionamento falido e num emprego infeliz, que transforma sua vida ao conhecer outras mulheres negras. “É escrito por uma mulher preta, com o olhar dela, mas é universal”, explica Taís.
A peça explora gerações e perspectivas, com a protagonista dizendo: “Me sinto inspirada pela Geração Z. Eles são chatos, mas têm uma aura de não aceitar desaforo”. Taís admira as mais jovens, como Bella Campos, que viveu sua filha em “Vale Tudo” e não hesita em expressar desconfortos.
Uma Nova Postura: Obedecer a Si Mesma
A grande mudança em Taís é sua decisão de parar de fazer coisas por pressão ou obrigação. “Não vou mais fazer porque tenho que fazer ou porque estou sendo pressionada. Vou olhar mais pra mim, me obedecer”. Essa postura reflete anos de aprendizado profissional.
O processo da peça, segundo ela, é “o mais amoroso, respeitoso, horizontal e perfeito que já vivi”. A equipe trabalha com os princípios de bell hooks, e toda a produção respira feminilidade, ancestralidade e cuidado — desde as bilheteiras que vibram com casa lotada até as musicistas do elenco, Dani Nega e Layla.
Taís Araujo finalmente permite-se estar em êxtase absoluto, em um projeto que honra sua trajetória e sua luta constante por autenticidade no ofício teatral.