Home NotíciasEmanuel Alencar: Transformando paisagens em oportunidades de lucro

Emanuel Alencar: Transformando paisagens em oportunidades de lucro

por Amanda Clark

“Entreguem-me este terreno. Transformarei isso em um Central Park.” Lota de Macedo Soares defendia o Parque do Flamengo como um espaço dinâmico e diversificado. Ela batalhou para que essa área fosse completamente pública e acessível, acreditando que o local não deveria ser apenas um extenso jardim para apreciação, mas sim um “parque ativo, onde a diversão se une à educação.”

Falecida em setembro de 1967, Lota estaria perplexa com o que vem ocorrendo no Parque do Flamengo. O Rio de Janeiro no século XXI parece ignorar os princípios urbanísticos em meio a construções improvisadas e alterações incessantes em uma área emblemática da cidade. A mais recente polêmica envolve a instalação de uma concessionária de automóveis chinesa em um espaço entre a Praia de Botafogo e a Avenida Rui Barbosa, onde anteriormente existia um posto de gasolina.

A cidade, cuja identidade global é marcada por suas paisagens, não pode sacrificar seu essencial em prol de interesses particulares. Quando a beleza natural se torna uma mercadoria, com a anuência da administração municipal, quem sofre as consequências é a população. O jornalista Leonel Kaz tem sido firme em sua crítica a um projeto que desafia tanto o bom senso quanto as normas legais:

“O tombamento federal realizado pelo Iphan em 1965 protege não apenas os jardins projetados por Burle Marx, mas também todo o complexo paisagístico que inclui parques, enseadas e a faixa costeira adjacente, abrangendo até 100 metros mar adentro. A área que está sendo construída faz parte desse complexo,” afirma ele.

A nova concessionária ocupa um terreno considerável, maior do que o antigo posto de gasolina, mas esse é apenas o mais recente episódio de uma série de intervenções urbanísticas questionáveis. No final de 2025, mesmo com o tombamento reconhecido pela própria prefeitura, o antigo Colégio Bennett na Rua Marquês de Abrantes, no Flamengo, perdeu 71 árvores para dar espaço a um novo empreendimento imobiliário. Em uma região já carente de vegetação, prevalece o interesse privado sobre o bem público.

Os licenciamentos expedidos de forma apressada sob a lógica da cidade-empresa — conduzidos pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico e não pela Secretaria Municipal de Meio Ambiente — precisam ser urgentemente contidos. O verdadeiro desenvolvimento deve priorizar o respeito às leis urbanísticas e ambientais.

O Rio não necessita de mais exceções; precisa urgentemente de planejamento adequado, fiscalização rigorosa e respeito ao patrimônio que lhe conferiu renome mundial. Como frequentemente ressalta Raquel Rolnik, a cidade não é uma mercadoria: é um bem coletivo e um direito acessível a todos. Quando a paisagem é tratada como uma oportunidade econômica passageira, perde-se muito mais do que uma vista; perde-se uma parte essencial da própria cidade.

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