O fim de uma era parlamentar
Após 29 anos na Câmara dos Deputados e oito mandatos consecutivos, o deputado Ivan Valente do PSOL encerrou sua carreira parlamentar sem alarde. A decisão ocorreu quando ele precisaria devolver seu mandato à titular da federação com a Rede, Marina Silva. Aos 79 anos, prestes a completar 80 em julho, o veterano reconhece a importância do momento de parar. “Outro dia, ouvi o Martinho da Vila dizer que saber parar é uma virtude. Eu também estou nessa”, brinca Valente sobre seu afastamento. “Foi uma decisão bem pensada. A idade pesa, e a política precisa de renovação”, completa.
Uma vida marcada pela luta contra a ditadura
A trajetória de Ivan Valente é inseparável da história recente do Brasil. Durante a ditadura militar, ele militava no Movimento pela Emancipação do Proletariado (MEP) e permaneceu na clandestinidade por sete anos até ser capturado em 1977. Preso no DOI-Codi do Rio de Janeiro, Valente sofreu torturas severas, incluindo pau de arara, choques elétricos e confinamento em cubículos sem luz, água ou comida, conhecidos como “geladeira”. Apesar das sequelas físicas deixadas pela tortura, suas convicções socialistas permaneceram inabaláveis.
Após a Anistia, Valente dirigiu o jornal alternativo Companheiro e foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT). Posteriormente, deixaria o partido para participar da fundação do PSOL, sendo conhecido por suas posições radicais que incorporou ao próprio slogan de campanha.
O apoio de Vera Lúcia: companheira de luta e vida
A vida de Valente é inseparável de sua esposa Vera Lúcia, a quem conheceu na clandestinidade durante a ditadura. Os dois foram perseguidos juntos pelo regime autoritário e mantiveram uma parceria que ultrapassou as barreiras políticas. Em 2023, Vera Lúcia doou um rim para seu marido, possibilitando um transplante que afastou Valente da Câmara por três meses. Esse gesto solidário reflete o profundo compromisso do casal com a vida e com a luta conjunta.
Reparação tardia: reconhecimento pela Comissão de Anistia
Após décadas, a Comissão de Anistia reabriu o processo de Valente há três anos, que havia sido arquivado no governo anterior. Em cerimônia solene, ele recebeu pedido formal de desculpas pela tortura sofrida e uma indenização de R$ 332 mil, referente ao período em que foi impedido de trabalhar como engenheiro e professor de matemática. Durante o ato, Valente quebrou protocolos ao pedir para não discursar na posição tradicional à direita. “Como jacobino, falo sempre pela esquerda”, justificou com um toque de humor que arrancou risadas do público.
Críticas ao Congresso atual e apelo pela renovação
Como muitos parlamentares de sua geração, Valente demonstra desânimo com o estado atual do Congresso Nacional. “O nível caiu muito, a mediocridade está grande. Até o convívio com os adversários já foi mais civilizado”, lamenta. “Sempre tive amigos no PSDB. Hoje a Câmara está cheia de deputados toscos, extremistas, napoleões de hospício. Com muita gente, não dá nem para conversar”, critica o ex-deputado.
O giro à esquerda que Valente prega para Lula
Mesmo se despedindo do Congresso, Valente continua atento à política nacional. Diante da derrubada do veto ao projeto que reduz as penas de Jair Bolsonaro e comparsas, o ex-parlamentar se indigna: “É um escárnio. Estão normalizando uma tentativa de golpe que não se consumou por um triz”.
Para o decano do PSOL, o governo precisa dar um “giro à esquerda” como estratégia para ganhar as próximas eleições. “O Centrão já escolheu seu candidato. Se Lula quiser ganhar a eleição, terá que virar a chave, defender pautas que interessem aos trabalhadores e convocar a militância para voltar às ruas. A gente precisa perder o pudor de fazer o enfrentamento”, defende Valente.
Continuidade na ativismo político
Sem mandato parlamentar, Ivan Valente promete manter-se ativo nas redes sociais e nas ruas. Já na sexta-feira seguinte à derrubada do veto, participou de live e compareceu a ato pelo Dia do Trabalhador. “Posso ficar na retaguarda, mas não vou deixar de fazer política”, promete o ex-deputado, reafirmando seu compromisso com a luta política que o define há mais de cinco décadas.