Uma história de justiça que virou literatura
A história de Gislayne Silva de Deus é um exemplo marcante de como a determinação pessoal pode transformar tragédia em propósito. Após 25 anos esperando pela prisão do assassino de seu pai, Givaldo José Vicente de Deus, Gislayne não apenas encontrou justiça, mas também inspirou uma obra de ficção que será lançada para o público brasileiro. Tudo começou com uma reportagem publicada pelo GLOBO que chamou a atenção da escritora Luciana de Gnone, especialista em romances policiais protagonizados por mulheres.
No dia 25 de setembro de 2024, Gislayne, que atua como escrivã da Polícia Civil de Roraima, finalmente conseguiu prender Raimundo Alves Gomes, condenado pelo homicídio de seu pai. A notícia foi acompanhada de um alívio evidente: “Agora, podem ficar tranquilos. O assassino do meu pai foi preso”, escreveu Gislayne aos seus familiares. Essa narrativa tocante foi transformada em um romance de 19 meses de produção intensa, que será lançado na próxima segunda-feira na Janela Livraria, no Rio de Janeiro.
Os detalhes do crime que marcou uma vida
Tudo começou em 16 de fevereiro de 1999, quando Givaldo saiu para jogar sinuca no Bar da Vanuza, em Asa Branca, Boa Vista. O pai de Gislayne estava devendo apenas R$ 150 a Raimundo, um comerciante local que possuía uma pequena vendinha na região. Armado com um revólver, Raimundo foi cobrar a dívida. Após uma luta corporal dentro do bar, disparou um tiro no umbigo de Givaldo, que foi levado imediatamente ao Hospital Geral de Roraima, mas não resistiu aos ferimentos.
Na época do crime, Gislayne tinha apenas 9 anos de idade. Quando jovem, ela não imaginava que seu futuro seria dedicado à área criminal. Porém, com a morte trágica de seu pai, seus objetivos de vida mudaram completamente. Crescendo sob o impacto dessa perda irreparável, Gislayne decidiu que sua missão seria buscar justiça não apenas para sua família, mas também para outras famílias que sofreram com crimes impunes.
De vítima a investigadora: a trajetória de Gislayne
Em entrevista ao GLOBO, Gislayne revelou as dificuldades que sua mãe enfrentou após a morte do pai, reconhecendo como a presença dele poderia ter evitado tantos desafios. “Meu pai chegou a ficar internado por dois dias. Depois disso, minha mãe me disse sobre a morte dele. Eu tenho lembranças das brincadeiras do meu pai de morder e de passar a barba na gente”, recordou, com emoção visível.
A busca pela justiça levou mais de duas décadas, mas finalmente chegou ao fim. Raimundo Gomes, então com 60 anos, foi encontrado escondido em uma chácara no bairro da Nova Cidade, em Boa Vista, onde tentava escapar da Justiça. Uma operação especial foi montada com o apoio do Departamento de Inteligência da Secretaria da Segurança de Roraima. Gislayne foi a oficial responsável por dar voz de prisão ao fugitivo, um momento que marcou profundamente tanto ela quanto a história que viria a inspirar uma obra literária.
O momento da verdade e da prisão
Durante a noite de 25 de setembro de 2024, Gislayne confrontou Raimundo com uma frase que resumia décadas de espera: “Eu que pedi a sua prisão e o senhor vai pagar por ter deixado cinco crianças órfãs”. Esse momento poderoso e carregado de emoção se tornou central na narrativa do livro que será publicado.
De acordo com a sentença assinada pelo juiz Iarly José Holanda de Souza, Raimundo Alves Gomes foi condenado por homicídio qualificado, cometido por motivo fútil. A pena fixada foi de 12 anos de reclusão. À época, Gislayne expressou um misto de paz e alívio, afirmando que “a justiça, finalmente, havia sido feita”.
Do jornalismo ao cinema: a história ganha novos formatos
Além do livro “Voz de Prisão”, lançado pela editora MapaLab, a história de Gislayne também inspirou um projeto de filme ou série que será produzido e protagonizado pela atriz Carol Castro. Luciana de Gnone, a autora, também se encarregará da adaptação para a tela. O lançamento do livro acontecerá com uma conversa especial entre Luciana, Gislayne e Carol Castro, proporcionando um encontro único entre a história real e sua transformação artística.
A história de Gislayne representa um testemunho poderoso de como a perseverança, mesmo diante das maiores adversidades, pode levar à justiça. Sua jornada de uma menina de 9 anos que perdeu seu pai de forma trágica para uma mulher que se dedicou a buscar justiça não apenas para sua família, mas para outras vítimas de crimes, é inspiradora. Agora, com o lançamento do livro e os projetos cinematográficos em desenvolvimento, sua história chegará a muito mais pessoas, perpetuando a memória de Givaldo e demonstrando que a justiça, ainda que tardia, pode ser alcançada.