Um encontro com o gênio perturbador do teatro brasileiro
A arte de contar histórias raramente encontra seu ponto de equilíbrio entre a precisão histórica e a liberdade criativa. O monólogo “Nelson Rodrigues — O passado sempre tem razão” consegue esta proeza ao trazer à vida um dos maiores dramaturgos brasileiros através da interpretação visceral de Bruce Gomlevsky. Estreando nesta sexta-feira (1º) no Centro Cultural Banco do Brasil, no coração do Rio de Janeiro, a produção não segue o caminho convencional de uma biografia linear, mas mergulha nos paradoxos e contradições do pensamento de um homem cuja obra continua relevante mais de quatro décadas após sua morte.
Uma jornada espiralar pelo pensamento nelsoniano
O dramaturgo carioca, conhecido como o “bardo dos subúrbios”, acreditava que toda unanimidade era burra. Este princípio fundamental guia toda a estrutura da peça, que funciona como um passeio confessional repleto de memórias, frases icônicas e obsessões intelectuais. O autor e diretor Carlos Jardim passou quatro meses imerso no universo de Nelson Rodrigues, explorando cronicamente suas obras teatrais, textos críticos e entrevistas para extrair as ideias mais provocativas e duráveis.
O que torna esta montagem particularmente relevante é a recusa de qualquer simplificação fácil. Nelson Rodrigues era complexo: machista, autodeclarado reacionário, fascinado pelo escândalo e pela verdade crua. Cada aspecto de sua personalidade é desfiado no palco, permitindo que o público forme suas próprias conclusões sobre este gigante literário que desafiava constantemente as estruturas sociais hipócritas.
A atualidade espantosa das palavras de Nelson
Um dos aspectos mais impressionantes da peça é como frases escritas décadas atrás parecem saídas de jornais contemporâneos. Quando o personagem declara “Estados Unidos e Rússia estão brigando para ver quem vai acabar com o mundo primeiro”, a audiência experimenta aquele desconforto produtivo que Nelson sempre buscava provocar. Máximas como “No Rio de Janeiro há de tudo — e até cariocas” e “Por enquanto, o ser humano é apenas um projeto sempre adiado” demonstram a capacidade quase profética do escritor em radiografar a condição humana.
Bruce Gomlevsky, que colaborou diretamente com a dramaturgia, descreve a experiência como um “mergulho dentro da cabeça de Nelson Rodrigues”. O ator ressalta que aquilo que Nelson produziu permanece impressionantemente pertinente para os dias atuais, extraindo poesia do cotidiano e provocando aquele riso incômodo que caracteriza toda grande arte transformadora. É como se Nelson tivesse enxergado a dimensão mítica do ser humano onde outros apenas viam vulgaridade ou simplicidade.
Uma carreira dedicada aos ícones transgressores
Esta é a terceira vez que Bruce Gomlevsky encarna um medalhão da cultura brasileira nos palcos. Anteriormente, o ator interpretou Renato Russo e Raul Seixas em monólogos de grande sucesso, sem mencionar sua participação no filme “Elis” (2016), onde viveu o jornalista Henfil. A trajetória profissional de Bruce demonstra uma escolha deliberada: trabalhar com artistas que cultivaram qualidades transgressoras em suas obras.
Particularmente notável é a longevidade de “Renato Russo — O musical”, que permanece em cartaz desde 2006, completando duas décadas de apresentações contínuas. Para um artista, este é um feito praticamente impossível em tempos contemporâneos, onde manter uma peça em cartaz por mais de três meses já é considerado excepcional. Bruce planeja manter viva esta tríade de grandes nomes brasileiros por muitos anos, especialmente porque todos compartilham a mesma intenção: mexer com as plateias através da transgressão artística.
Múltiplos projetos em desenvolvimento
Além do novo monólogo sobre Nelson Rodrigues, Bruce Gomlevsky segue um cronograma ambicioso que inclui a reestreia de “Hamlet”, montagem da Companhia de Teatro Esplendor que dirige há 15 anos. O ator, que também é estudante do 7º período de filosofia na UniRio e cursa doutorado em teatro, ainda participa do filme “Deus ainda é brasileiro”, último projeto do cineasta Cacá Diegues, com lançamento previsto para agosto.
A batalha para manter produções teatrais ativas é constante e exigente. Bruce trabalha em turnos múltiplos, mas mantém firme sua filosofia: não aceita montar uma peça apenas para dois meses de apresentações. Sua dedicação reflete uma perspectiva rara em tempos de consumo acelerado de cultura, priorizando a longevidade e a profundidade das criações artísticas.
Informações práticas da apresentação
O espetáculo segue em cartaz no Teatro II do Centro Cultural Banco do Brasil, localizado na Rua Primeiro de Março, 66, Centro do Rio de Janeiro. As apresentações ocorrem segundas e quartas a sábados às 19h, e aos domingos às 18h. O ingresso custa R$ 30, com duração de 75 minutos e classificação indicativa para maiores de 14 anos. A temporada prossegue até 25 de maio, oferecendo oportunidade para o público fluminense conhecer esta reinterpretação magistral de um dos maiores pensadores da dramaturgia brasileira.