Em 2021 a Toca do Baiacu, botequim carioca que fica na Rua do Ouvidor número 41, foi tema da matéria intitulada “Samba, cachaça e ovos coloridos: pé-sujos são a essência do Rio”. Deu no NY Times. Contudo, a história do bar tem outros lugares e pessoas juntos e misturados.
Como todo botequim de respeito, a Toca do Baiacu tem prateleiras de bons causos. A própria matéria do NY Times é um deles. Marquinho Targino, de 67 anos de idade, o proprietário, contou à reportagem do DIÁRIO DO RIO como foi: “Veio um rapaz aqui dizendo que era jornalista e queria fazer uma reportagem sobre o bar. Como não sou muito simpático e meu inglês não é grande coisa, não dei muita bola. Mas ele insistiu e voltou aqui. Um dia tinha uma amiga minha que é comissária de bordo, que fala inglês, e foi conversando com ele e comigo, traduzindo. Não levei muita fé, mas logo depois foi publicado”.
A reportagem, em destaque, em uma das paredes do bar
São muitos bons causos. Certa vez, um casamento estava acontecendo na Igreja Santa Cruz dos Militares (pertinho do bar) e o noivo – um pouco cansado de esperar a noiva – foi fazer hora em uma roda de samba em frente à Toca do Baiacu. Deu tudo certo. Ele voltou para o altar, o matrimônio foi sacramentado e os pombinhos ainda foram terminar a noite no profano botequim.
“Muitas histórias acontecem perto do natal. Parece que nessa época do ano, os capetinhas atentam”, disse Marquinho recordando alguns episódios que as paredes da Toca vão guardar na memória.
Uma dessas situações que presenteiam os natais na Toca do Baiacu foi a seguinte: dois clientes, bem arrumados, cheios de sacolas de compras de fim de ano, tomaram um banho porque não confiaram em um garçom que avisou que ia cair água do toldo mesmo estando um belo dia de sol. Havia chovido horas antes e a cobertura enquanto era ajustada pelo funcionário ainda estava molhada e soltou para baixo o líquido que passarinho bebe. Não foi por falta de conselho.
Algumas histórias são impublicáveis. Sobretudo as que envolvem os amigos ilustres da Toca do Baiacu. Aliás, são muitos parceiros importantes. Jornalistas boêmios como Alvaro Costa e Silva (o Marechal), Ruy Castro, Xico Sá e tantos outros reforçam as linhas do rico cardápio.
O cartunista Cássio Loredano, um dos amigos da Toca, presenteou o botequim com alguns desenhos originais para ajudar a pagar os custos durante a pandemia de covid-19.
Do banco para o banco do bar
Marquinho Targino fez carreira trabalhando em bancos, no sistema financeiro. Começou, garoto pobre cria do Rio Cumprido, como contínuo e foi mudando de cargos. Hoje é pai de dois filhos. “Eles estavam fora do Brasil. Um na Inglaterra e outro no Mato Grosso”.
“Eu comecei de calça curta no Itaú da Praça Pio X, em oito de julho de 1974. E por acaso, ou por obra do destino, eu caí como boy na mesa de operações do mercado aberto. Eu não sabia nem o que que significava aquilo. Depois fui saber que ali era o coração do banco. Fui galgando posições até chegar ao comando da mesa de operações”, recorda o hoje proprietário da Toca do Baiacu.
Na região da Praça XV, Rua do Mercado, Ouvidor e arredores havia uma grande concentração de bancos, além da bolsa de valores. Marquinho trabalhava pela área e sempre tomava umas cervejas onde hoje é a Toca do Baiacu.
Nessa época, era um botequim chamado Ninense que funcionava na Ouvidor 41. O português que tomava conta se chamava Manoel Davi. Segundo Marquinho, ele odiava ser chamado pelo primeiro nome.
Detalhes da Toca do Baiacu
No início dos anos 2000, Manoel, quer dizer, Davi, estava prestes a vender o boteco para uma doceria. Cliente fiel há muitos anos, Marquinho se mobilizou: “Porra, ia acabar com nosso parquinho”.
“Falei com um amigo que, digamos assim, tomava conta da minha vida financeira e fizemos as contas para fazer uma proposta ao Davi para eu assumir o bar”. O português aceitou e perguntou ao Marquinho se ele queria ficar com alguma coisa do estabelecimento. A resposta foi: “Pode levar tudo, inclusive as baratas”.
O Ninense era um pé-sujo bem pé-sujo. O nome fazia referência a uma freguesia portuguesa localizada em Vila Nova de Famalicão, no distrito de Braga. Em 2005, Marquinho inaugurou a Toca do Baiacu. O resto é história.
O estandarte do bloco que desfilava pelas ruas do Centro do Rio
De lá para cá, nessas duas décadas, o botequim gerou bloco de carnaval, times de futebol, rodas de samba – os hoje badalados Samba da Volta e da Ouvidor começaram na Toca. Engrossa o caldo da cultura carioca. Ao lado da Folha Seca, foram inúmeros eventos voltados para as coisas nossas do Rio de Janeiro. Vide a matéria do NY Times, que falou das festas na Rua do Ouvidor, das cervejas, dos ovos coloridos e de tudo que só um bom pé-sujo pode oferecer.
O nome veio de um bullying
Marquinho, que diz que não gosta muito de falar, contou que a Toca do Baiacu ganhou esse nome porque, ainda nos tempos de Ninense, um garçom tinha uma barriguinha, era fanho, e ficava irritado quando era sacaneado por isso.
“Antigamente, a gente até podia brincar. Eu gostava de fazer um bullying com ele. Orlandinho era o nome dele. Depois, ele quase veio trabalhar aqui, mas acabou não acontecendo. Eu sempre era o último a sair do bar. Era um balcão cumprido, eu ficava em pé tomando minha cerveja. O Davi sempre fechava às nove da noite e o Orlandinho vinha com uma leiteira de hotel de dois litros, cheia de durepoxi no fundo, enchia de água e vinha lavando o bar. Na época, não existia o banheiro feminino ainda, era só um mictório muito fedorento, um chão de cerâmica. Não tinha muito espaço. Então, ele jogava água no chão lá de cima e vinha puxando com o rodo. Quando chegava na porta, a água já tinha acabado. Ela evaporava, sumia. Nesse dia, estava muito calor, Orlandinho ia subindo a escada e foi falando ‘vambora, vambora’ , e eu falei para ele ‘vambora é o caralho. Vá lavar essa bunda’. Nessa, chamei ele de peixinho de vala. Então, ele levantou a camisa, uma camiseta encardida, já se trocando para ir embora e mostrou a barriga. Aí, comecei a falar que ele não era peixinho de vala e sim um baiacu. Falei ‘vem cá, meu baiacuzinho, vem cá’. Ele ficou puto, me mandou tomar no cu. Aí, eu pedi ao seu Davi que ele me emprestasse uma folha de papel. Ele me deu aquele papel de embrulhar cigarro, o caderno dele eram aquelas folhas, português adorava