A antiga Grécia abordava o conceito de húbris, referindo-se ao orgulho desmedido que culminava na queda dos guerreiros, punidos pela fúria de Nêmesis, a deusa da vingança e da retribuição. Tanto Eduardo Paes quanto seu “cover”, conforme mencionado por Fábio Porchart, parecem ignorar essas lições da história. É notável a quantidade de iniciativas que têm empreendido, desconsiderando a lógica comum e a preservação ambiental, além do patrimônio histórico.
Durante seus primeiros mandatos, Paes promoveu a demolição da histórica Fábrica da Brahma, uma referência no Catumbi. Seu projeto denominado Porto Maravilha incluiu planos para construções de até cinquenta andares, sem garantir a proteção adequada para os galpões que ainda restavam da atividade portuária no retroporto. Como consequência desse planejamento apressado, a cidade agora enfrenta uma barreira construída nas proximidades da rodoviária, conhecida como Curilândia, que oculta aos olhos dos cariocas o Morro do Pinto e a pequena igreja de Nossa Senhora de Montserrat.
Recentemente, nos mandatos mais recentes do Prefeito Paes, houve um aumento sem precedentes na autorização para a remoção de árvores em propriedades privadas. Informações reveladas por André Trigueiro indicam que o número de árvores derrubadas para novas construções disparou de 5.216 em 2021 para 13.130 em 2025, representando um crescimento impressionante de 151%. A cidade já padecia com um grave déficit em sua arborização urbana, especialmente nas Zonas Norte e Oeste, tornando-se ainda mais vulnerável ao aumento das temperaturas devido às mudanças climáticas.
A Prefeitura determinou que essas remoções deveriam ser compensadas pelo plantio de cerca de 175 mil mudas em áreas urbanas. No entanto, as novas plantas levam tempo para crescer e nem todas conseguem se estabelecer. Além disso, não existe fiscalização por parte do governo municipal para verificar se essas plantações foram efetivamente realizadas. O resultado é uma redução alarmante na cobertura arbórea.
Um exemplo emblemático de licença controversa para derrube de árvores ocorreu no antigo Colégio Metodista Bennet, localizado no Flamengo. O palacete datado de 1859 foi residência do Barão de São Clemente e foi tombado pelo Município do Rio de Janeiro em 2014 junto com sua cavalariça. As árvores presentes no local foram consideradas protegidas contra cortes. Entretanto, neste ano o Prefeito autorizou a remoção de 71 árvores frondosas daquela área histórica. Os moradores locais expressaram sua indignação e realizaram dois protestos em frente ao palacete.
No Jardim de Alah, um parque também tombado pelo Município, a Prefeitura deu luz verde a um projeto que compromete sua integridade e impermeabiliza o solo com a construção de grandes áreas comerciais, configurando um verdadeiro mini shopping dentro do parque. Em relação ao Pão de Açúcar, foi aprovado um projeto para uma tirolesa que comprometeu parte do cume desse monumento histórico. Embora recentemente a Justiça tenha determinado a suspensão das obras, os danos à estrutura já estavam consumados.
Mais uma polêmica recente envolve o corte de cerca de vinte árvores no Buraco do Lume para viabilizar a construção de um grande edifício residencial numa área reconhecida como espaço público. Atualmente, uma decisão judicial suspendeu essa derrubada arbórea; no entanto, essa suspensão pode ser revertida.
A situação favorável para Eduardo Paes reside no fato de que seus principais adversários políticos à direita bolsonarista não costumam priorizar questões ambientais ou paisagísticas. Eles parecem mais interessados em descartar esses “detalhes”. Se esses opositores demonstrassem alguma preocupação com essas temáticas, teriam material suficiente para criticar fortemente a candidatura de Paes ao governo do Estado do Rio de Janeiro. O ex-prefeito continua sua busca por mais influência política desprezando as vozes dos ambientalistas e dos defensores do patrimônio cultural. Ignora ainda que Nêmesis pode eventualmente se enfurecer.