Os vitrais mais icônicos do coro da Igreja da Candelária, localizada no centro do Rio de Janeiro, estão passando por um processo de restauração pela primeira vez desde sua instalação em 1899. Após 127 anos expostos a poeira, vandalismos e à vibração causada pelo tráfego intenso na Avenida Presidente Vargas e Rua da Candelária, as peças de origem alemã foram cuidadosamente removidas.
A peça central dos vitrais retrata Nossa Senhora da Candelária segurando o Menino Jesus, enquanto os vitrais adjacentes apresentam anjos mensageiros. No total, foram retirados 111 fragmentos dos três principais vitrais, sendo que cada um é composto por 37 partes durante a desmontagem.
O procedimento de restauração é complexo e requer atenção especial. Para isso, foi montado um andaime adequado para a remoção das peças, uma vez que nem todos os vitrais estão alinhados e as imagens dos arcanjos possuem dimensões reduzidas.
“Esse é um aspecto que muitos visitantes da igreja não notam. Para ter uma visão mais clara da obra, o ideal é observá-la da nave central, mais próximo ao altar”, esclareceu Helder Magalhães Viana, gerente de Arqueologia do Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH).
A atividade de retirada também se transformou em uma prática didática para alunos e especialistas em Museologia, Belas Artes e disciplinas afins. Durante uma visita técnica ao local, o grupo teve a oportunidade de examinar as técnicas utilizadas na ornamentação dos vitrais, bem como vestígios de restaurações anteriores, além de identificar vidros danificados e outras imperfeições.
O projeto de restauração tem previsão de duração de quatro meses e recebeu autorização do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), que tombou a igreja em 1938.
As etapas planejadas incluem a troca de peças quebradas — muitas delas afetadas por pedradas — limpeza dos vidros originais e recuperação das tonalidades. Segundo o planejamento, 98% do trabalho original será mantido intacto.
Vidros novos para reposição foram importados da Casa Mayer, situada em Munique, Alemanha, mesma fabricante dos vitrais originais. Com uma história que remonta a 1847, a empresa ainda é gerida pela quinta geração da família fundadora.
“Utilizamos vidros muito finos com espessura de 3 a 4 milímetros. Essa técnica nos permite criar vidros em formatos e cores variadas que acentuam a beleza dos vitrais”, comentou Walter Uotmoot, representante da Casa Mayer que está supervisionando o restauro.
A restauração incluirá também o uso de pigmentos com chumbo para recuperar as cores autênticas e a instalação de vidraças protetoras e telas metálicas. Esse modelo já é empregado em vários países europeus para preservar vitrais históricos.
Um novo sistema de ventilação será implantado junto aos vitrais para minimizar a umidade nas peças, um problema potencializado pela maresia devido à proximidade da igreja com a Baía de Guanabara, situada cerca de 300 metros dali.
A Luidi & Luiza Vitrais é a empresa encarregada desse trabalho no Rio de Janeiro e possui aproximadamente 50 anos de experiência na área. A equipe já atuou em restaurações em locais como o Palácio Pedro Ernesto, Catedral de Brasília, Palácio Laranjeiras e Palácio do Catete.
A criação artística dos vitrais da Candelária é atribuída aos brasileiros João Zeferino da Costa e Henrique Bernardelli. Os esboços foram enviados à Alemanha em 1898, um ano antes da colocação das peças.
Dentre as narrativas populares sobre essa obra está a afirmação de que a imagem de Nossa Senhora da Candelária teria sido inspirada na esposa de um amigo próximo a Zeferino da Costa.
“Embora não haja evidências concretas disso ter acontecido, era comum naquela época que artistas utilizassem modelos reais como inspiração para suas obras. Isso se intensificava entre aqueles que frequentavam academias artísticas como Zeferino”, comentou Janaína Ayres, doutora em Artes Visuais pela Escola de Belas Artes da UFRJ com mestrado em Arte Sacra.
A relação entre Zeferino da Costa e a Igreja da Candelária se estendeu por aproximadamente 30 anos. Entre 1869 e 1899, ele criou diversas pinturas e murais que ainda adornam a nave central e outros ambientes do templo. Entre suas obras destacam-se seis quadros no teto da nave que narram parte da história daquela igreja desde o século XVII.
Antes do edifício atual ser erguido, o terreno abrigava uma capela construída nas primeiras décadas do século XVII. Segundo relatos tradicionais, essa capela foi erguida após uma promessa feita pelo casal espanhol Antônio Martins da Palma e Leonor Gonçalves durante uma tempestade no mar; eles prometeram construir uma capela dedicada à Nossa Senhora da Candelária no primeiro porto onde chegassem.
A construção da igreja atual teve início em 1775 sob projeto do engenheiro militar português Francisco João do Roscio. Em estilo barroco, sua conclusão ocorreu apenas em 10 de julho de 1898 após um longo período de 123 anos.
“A Candelária representa um museu ao ar livre que ilustra grande parte da trajetória religiosa no Brasil. O vitral criado por Zeferino retratando a santa é um símbolo marcante desse local”, afirmou Justino Neto, secretário responsável pela Irmandade do Santíssimo Sacramento da Candelária que administra o templo.
A coordenação do restauro está sob responsabilidade do IRPH em colaboração com a Irmandade do Santíssimo Sacramento da Candelária e com apoio do Consulado Geral alemão. O projeto intitulado “Vitrais da Igreja da Candelária: restauração de um patrimônio ameaçado” tem investimento estimado em R$ 1,6 milhão.
Os recursos são provenientes da fundação alemã Gerda Henkel que apoia pesquisas nas áreas de arqueologia, história artística e preservação patrimonial. Além dos trabalhos nos vitrais, essa parceria visa fomentar a formação profissional especializada na área.
O processo será também tema central durante um seminário internacional programado para agosto no Rio, assim como numa exposição pública e na produção de um livro documentando todo o restauro realizado. Alunos do Educandário Gonçalves de Araújo — mantido pela Irmandade — participarão ainda de oficinas voltadas à Educação Patrimonial focadas na produção artesanal de vitrais.
Essa é a segunda colaboração entre a Fundação Gerda Henkel e iniciativas no Rio; há seis anos atrás foi financiado o tratamento emergencial para restaurar um vitral danificado durante ações dos bombeiros em decorrência de incêndio no Theatro Municipal.