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Preservando a História: o patrimônio que nunca se apaga

por Amanda Clark

Há um equívoco recorrente — e, em 2026, ele tende a se ampliar — de tratar a crítica a certos usos da teoria decolonial como se fosse um gesto ideológico, conservador ou reativo. Não é. Ao menos, não precisa ser. Ao contrário: em muitos casos, trata-se de uma defesa urgente e necessária dos pilares da nossa historicidade, com todas as suas ambiguidades imanentes, seus conflitos constitutivos e suas camadas dialéticas. Defender a historicidade brasileira não é celebrar um passado sem fraturas — é recusar que esse passado seja reduzido a uma peça acusatória monotemática, incapaz de revelar suas tensões, seus cruzamentos e a complexa formação cultural do país.

Nos últimos anos, o que se convencionou chamar de “decolonial” ganhou status de vocabulário obrigatório em parte relevante do debate cultural, museológico e acadêmico. E há, nisso, aspectos profundamente legítimos: a valorização de matrizes culturais historicamente negligenciadas; a denúncia de apagamentos; o reposicionamento de sujeitos e narrativas; o reconhecimento de violências estruturais. O problema começa quando esse ímpeto deixa de ser um instrumento crítico e passa a ser um filtro totalizante — uma espécie de lente que, ao tentar purificar o mundo, torna o mundo irreconhecível. Nessa passagem, o decolonial pode deixar de ser crítica e virar método de amputação. Some-se a isso um fenômeno muito evidente nas academias: uma leitura apressada — quando não anacrônica — que rebatiza como “decoloniais” tradições e correntes anticoloniais que já existiam no Brasil desde muito antes, como se o país tivesse esperado o vocabulário importado do presente para enfim produzir sua própria consciência crítica. Há aí, não raro, certo oportunismo intelectual, desses que reembalam o já conhecido para vendê-lo como novidade.

É nesse ponto que a reflexão do professor Vladimir Safatle se torna especialmente útil — e convém situar a circunstância com precisão. No ensaio O grande FMI universitário, publicado na revista Piauí (edição nº 232, janeiro de 2026), Safatle observa como certa crítica decolonial, ao abandonar a economia política e as formas concretas de reprodução do poder, pode terminar funcionando como retórica ruidosa e pouco consequente. Ali ele formula, de maneira certeira, a advertência que deveria ecoar para além do mundo acadêmico: “uma reflexão sobre o colonialismo sem uma teoria do monopólio é como uma bomba que só produz barulho”. Ou seja: pode soar radical, pode criar pertencimentos e reputações, mas não toca na engrenagem que move a dominação e as desigualdades. E, pior, pode acabar servindo a um outro colonialismo — mais elegante, mais cosmopolita, mais “atualizado” — não oriundo do Estado, mas dos circuitos acadêmicos internacionais.

Porque existe, sim, um paradoxo que poucos têm coragem de nomear: em nome de um discurso supostamente libertador, muitas vezes importado e traduzido como moda intelectual, cria-se uma forma de neocolonialismo epistêmico — advindo das academias europeias e norte-americanas — que procura transformar o legado histórico brasileiro em mero artefato colonial descartável. O patrimônio deixa de ser campo de disputa e contradição para virar evidência do crime. A arquitetura, a talha, a imaginária sacra, as praças, os conjuntos urbanos, os acervos e seus mundos simbólicos passam a ser reduzidos a “instrumentos de opressão”, como se sua existência não comportasse ambivalências, apropriações, reinvenções e possibilidades pedagógicas. Tudo vira sintoma. Tudo vira acusação. E o gesto crítico, em vez de alargar a inteligência histórica, encurta-a.

É o tipo de operação que, sob a pretensão de jogar a água suja fora, resolve também se desfazer do bebê. E isso não é apenas um gesto teórico: é uma tragédia política e cultural.

Primeiro, porque o Brasil sempre conviveu com enorme descaso institucional diante da memória e de suas estruturas de preservação. Isso não é um problema recente, nem fruto de uma “onda” contemporânea de cortes e retrocessos. Em 1794, Monsenhor Pizarro já denunciava a tibieza dos administradores: a negligência com as fábricas paroquiais, a falta de zelo com alfaias, o estado precário de conservação, o arruinamento de monumentos — numa época em que preservar ao menos a capela-mor dos templos era obrigação solidária del rei. O país tem, historicamente, uma vocação para rasgar o passado: demolir, adulterar, abandonar, vender, deslocar, desfazer. Esse impulso distópico atravessa séculos e se manifesta tanto na ação quanto na omissão.

Ora: num país em que preservar sempre foi difícil, caro, descontinuado e — muitas vezes — indesejado por elites apressadas em “modernizar”, qualquer cisão narrativa que desvalorize nossos monumentos históricos funciona como fertilizante para o abandono. Ajuda, sobretudo, a manter comunidades — especialmente as mais pobres, periféricas e interioranas — distantes do direito à memória e à fruição do patrimônio cultural. E é sempre bom lembrar: fruição não é luxo. É cidadania. É dignidade civilizatória.

Segundo, porque a crítica simplificadora que transforma o legado colonial em algo meramente descartável atinge diretamente o miolo do nosso sistema de preservação. O Brasil tem mais de mil bens tombados em nível nacional; e mais de um terço deles tem matriz colonial. Se considerarmos os bens móveis, então, o quadro se torna ainda mais evidente: praticamente tudo o que é tombado nessa categoria provém de igrejas e templos — com exceções pontuais ligadas a acervos museológicos e outras singularidades. Isso significa que o patrimônio protegido no Brasil é, em larga medida, um patrimônio historicamente conectado à vida religiosa, comunitária e urbana, em milhares de municípios. Há uma praça e uma igreja centenária em praticamente toda cidade do país — e estas cidades são milhares.

E aqui reside uma perversidade que o discurso decolonial mais apressado não enfrenta: esse legado não é sinônimo de “branquitude europeia” nem propriedade exclusiva de elites intelectuais. Ele é, muitas vezes, o único grande monumento de uma comunidade inteira. O único elemento de continuidade histórica numa região marcada pelo abandono. O único polo possível de turismo cultural, de economia criativa, de pertencimento. O único “centro” simbólico de um município que vive de trabalhos precarizados e de políticas públicas rarefeitas.

Portanto, quando se propõe — direta ou indiretamente — que a herança colonial é algo que deve ser moralmente superado por meio do apagamento simbólico, o que se está fazendo é descartar justamente a fatia mais desfavorecida, eclipsada e com maior potencial de desenvolvimento sustentável. Não é incomum que a crítica “radical” vire, na prática, uma forma sofisticada de elitismo: condena-se o monumento, mas não se oferece alternativa real para a cidade que só tem aquele monumento. Demoniza-se o templo, mas não se compreende que aquele templo é também sociabilidade, arquivo, arte, técnica, ofício, e por vezes até assistência comunitária.

Terceiro — e talvez mais importante — porque o abandono do patrimônio é sempre funcional a um projeto de poder. Quem agradece todos os dias quando certos segmentos do pensamento decolonial se tornam xiitas,

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