Durante o mês de Abril Azul, que visa a conscientização sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA), profissionais da área enfatizam que a inclusão se inicia na maneira como a sociedade se comunica e acolhe essas pessoas. Abordagens simples na comunicação e acesso a um suporte multidisciplinar integrado são considerados cruciais para garantir a autonomia, o desenvolvimento e a qualidade de vida dos indivíduos autistas.
Ainda segundo os especialistas, a comunicação permanece como uma das maiores dificuldades enfrentadas por quem tem TEA, especialmente em relação à interpretação de gestos, expressões e intenções. João Grangeiro, diretor executivo da Associação Brasileira Beneficente de Reabilitação (ABBR), destaca que adaptar a linguagem é um passo fundamental para tornar as interações mais inclusivas e acessíveis.
“É imprescindível que estejamos abertos a modificar nossa forma de nos comunicar. Isso resulta em interações mais claras e acolhedoras, além de incentivar a participação de pessoas autistas em diversos ambientes do dia a dia”, declarou.
Grangeiro também compilou sete sugestões para facilitar o diálogo com pessoas autistas. Entre as dicas estão: utilizar uma linguagem clara e direta, sem metáforas ou ambiguidades; respeitar o tempo de resposta individual; e incorporar recursos visuais. As recomendações são as seguintes:
- Use uma linguagem clara e objetiva: evite metáforas, ironias ou significados duplos, priorizando frases diretas.
- Respeite o tempo de resposta: cada indivíduo possui seu próprio ritmo; aguarde sem interromper ou completar as falas.
- Aposte em recursos visuais: imagens, cartões, aplicativos ou gestos podem auxiliar na compreensão.
- Observe a comunicação não verbal: expressões faciais e comportamentos também comunicam.
- Crie rotinas previsíveis: ambientes organizados ajudam a reduzir a ansiedade e facilitam as interações.
- Valorize tentativas de comunicação: reconhecer os esforços fortalece a confiança e o vínculo entre as partes.
- Busque apoio profissional: fonoaudiólogos e terapeutas ocupacionais podem oferecer estratégias personalizadas.
A importância do suporte multidisciplinar é outra questão ressaltada por especialistas no desenvolvimento de pessoas com TEA. A colaboração entre família, escola e atendimento clínico favorece avanços significativos, enquanto cuidados fragmentados podem dificultar esse progresso.
A experiência do professor Ernani Ladeira, 44 anos, pai de Heitor, diagnosticado ainda na infância com TEA, exemplifica essa realidade. Ele compartilha que enfrentou muitos desafios ao tentar encontrar terapias integradas que fossem acessíveis financeiramente.
“A principal dificuldade era localizar um lugar que oferecesse diferentes terapias e que ainda fosse coberto pelo meu plano de saúde”, recorda Ernani.
Tarcizio Brito, neuropediatra do laboratório Bronstein, afirma que a falta de integração entre os diferentes serviços de cuidado é um grande obstáculo no tratamento das crianças autistas. “O desenvolvimento das crianças depende da articulação entre clínica, família, escola e rede de apoio. Essa união é vital para trabalhar a autonomia da criança tanto dentro quanto fora do ambiente terapêutico”, explica Brito.
A rotina da família Ladeira teve uma reviravolta positiva nos últimos meses com o início do acompanhamento integrado. Hoje com 6 anos e classificado no nível 3 de suporte, Heitor passou a ser atendido por uma equipe multidisciplinar em um único local. Segundo seu pai, os resultados já estão se fazendo notar.
“Ele está mais independente, focado e interessado em brincar. A criança autista evolui quando recebe um suporte que os pais sozinhos não conseguem proporcionar”, comentou Ernani.
A carga emocional nas famílias também é ressaltada pelos especialistas. O envolvimento intenso nos cuidados pode causar desgaste nas relações familiares. Assim, redes de apoio voltadas não apenas para as crianças mas também para todos os membros da família são essenciais.
No campo da genética, avanços significativos têm ocorrido. Exames modernos têm possibilitado diagnósticos mais rápidos e precisos, especialmente em casos relacionados a alterações genéticas. O geneticista Gustavo Guida indica que tecnologias como sequenciamento do exoma e do genoma têm permitido identificar mutações relevantes rapidamente.
“Esses exames não apenas melhoram as condutas clínicas como também aumentam a precisão nas investigações”, finaliza Guida.