Home NotíciasEl Niño 2026: a natureza não está exagerando, somos nós que estamos falhando

El Niño 2026: a natureza não está exagerando, somos nós que estamos falhando

por Amanda Clark

Um recente aviso da Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) e do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) indicou a possibilidade de um El Niño extremamente forte entre o final de 2026 e o início de 2027. Esse alerta deveria impulsionar uma resposta imediata das autoridades brasileiras. Contudo, o que se percebe é um silêncio preocupante por parte das instituições, além da continuidade de decisões políticas que vão na contramão da proteção ambiental.

El Niño é um fenômeno natural, mas o agravamento de seus efeitos não é algo que se pode considerar natural.

Quando previsões técnicas sinalizam um aumento nas inundações no Sul, secas severas nas regiões Norte e Nordeste, ondas de calor intensificadas no Sudeste e Centro-Oeste, além de um aumento significativo do risco de incêndios na Amazônia e no Pantanal, não estamos apenas testemunhando uma variação climática. Estamos observando a interação entre fenômenos naturais e escolhas humanas inadequadas.

A responsabilidade das escolhas políticas é indiscutível.

A ciência há muito tempo aponta que práticas como desmatamento, ocupações irregulares em áreas urbanas, destruição de zonas de preservação permanente, impermeabilização dos centros urbanos e flexibilização das legislações ambientais comprometem seriamente a capacidade do Brasil para lidar com eventos extremos.

Apesar disso, continuamos a retroceder em nossas ações.

No estado do Rio de Janeiro, por exemplo, temos visto recentemente propostas que buscam flexibilizar áreas protegidas serem apresentadas como avanços administrativos. Na verdade, essas iniciativas representam uma profunda falta de entendimento sobre a atual crise climática.

Desconsiderar a proteção ambiental em um momento em que estamos enfrentando extremos climáticos não representa progresso.

É uma escolha arriscada.

Esse tipo de decisão transforma fenômenos naturais em tragédias inevitáveis.

Não é o El Niño que provoca enchentes em cidades com ocupações irregulares. Não é ele quem permite construções em áreas vulneráveis. E não é o fenômeno que diminui a vegetação essencial para a proteção de encostas, margens fluviais e zonas costeiras.

A responsabilidade recai sobre nós.

Quando as políticas públicas desconsideram as evidências científicas e veem o licenciamento ambiental como um mero obstáculo burocrático, os resultados são catastróficos: perdas humanas, danos econômicos e colapsos na infraestrutura urbana se tornam inevitáveis.

E o mais alarmante: tudo isso já pode ser antecipado.

O planeta não está exagerando em suas reações; está respondendo proporcionalmente ao modelo de ocupação territorial que escolhemos manter.

Transformar as normas ambientais em barreiras políticas pode gerar aplausos imediatos de determinados setores econômicos. Contudo, isso custa caro à sociedade quando ocorrem chuvas intensas, ondas de calor severas, incêndios florestais e crises hídricas.

O El Niño previsto para 2026 pode ser apenas mais um evento climático.

Ou pode se tornar mais um episódio trágico resultante de decisões humanas erradas.

A distinção entre esses dois cenários não reside na natureza.

E sim na política.

*Antonio Marcos Barreto: gestor ambiental com especialização em direito ambiental e mestrado em Ciências do Meio Ambiente. Com mais de 25 anos dedicados à vida pública, atualmente atua como Secretário de Ambiente, Mudanças do Clima e Bem Estar Animal em São João de Meriti-RJ. É Vice-Presidente Nacional da ANAMMA (Associação Nacional de Municípios e Meio Ambiente) e Presidente da ANAMMA-RJ.

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