Home NotíciasO Campeonato Carioca é tão relevante quanto o Argentino? Uma análise histórica

O Campeonato Carioca é tão relevante quanto o Argentino? Uma análise histórica

por Amanda Clark

Analisar a relevância de competições que marcaram época é uma tarefa desafiadora. Historicamente, o Campeonato Carioca, junto ao Paulista, foi, por muitos anos, a principal competição de clubes no Brasil, especialmente na ausência de um campeonato nacional. Mesmo após a introdução do Campeonato Brasileiro, os torneios estaduais mantiveram sua importância por um período considerável, em alguns momentos quase equiparando-se ao torneio nacional.

Um aspecto menos reconhecido é que clubes brasileiros já atribuíram mais valor aos campeonatos estaduais do que à própria Libertadores. Essa percepção errônea resulta na exclusão dos estaduais da lista de principais troféus dos clubes, como se os critérios atuais fossem os únicos válidos. No presente, o Campeonato Carioca é frequentemente visto como o quarto ou até inferior em importância na temporada.

Essa nova perspectiva provoca debates interessantes, especialmente entre torcedores mais jovens ou em discussões nas redes sociais. É comum encontrar listas de conquistas que ignoram os estaduais, mas incluem competições que nunca tiveram tanta relevância histórica, sob a justificativa de serem nacionais ou internacionais. Por exemplo, muitos destacam títulos como a Copa dos Campeões de 2001 ou a pouco conhecida Copa Ouro de 1996 no histórico do Flamengo, enquanto esquecem os Campeonatos Cariocas conquistados pelo clube nessas mesmas épocas, que eram muito mais significativos.

Como lidar com a exclusão dos tricampeonatos do Flamengo nas temporadas de 1942/43/44 e 1953/54/55? Esses anos foram marcados pela supremacia do Carioca como a principal disputa entre clubes no Brasil.

Para ilustrar essa questão intrigante, podemos fazer uma comparação inusitada: os antigos Campeonatos Cariocas em relação aos Campeonatos Argentinos.

Essa ideia surgiu durante uma conversa com um pesquisador sobre futebol argentino após uma discussão no Twitter antigo. Um torcedor do Newell’s Old Boys (um clube considerado pequeno na Argentina) argumentava que sua equipe tinha mais títulos argentinos do que Botafogo ou Fluminense possuíam de Campeonatos Brasileiros. A dúvida levantada era simples: seria justo atribuir ao campeonato argentino o mesmo peso que se dá ao brasileiro?

Aqueles familiarizados com o futebol argentino reconhecem uma peculiaridade: várias equipes podem ser campeãs em uma mesma temporada. Em 2025, por exemplo, três clubes conquistaram títulos no mesmo ano: o Platense venceu o Torneio Apertura (primeiro turno), o Estudiantes levou o Clausura (segundo turno), e o Rosario Central foi campeão da tabela geral da Liga (soma dos dois turnos).

Se o Brasil adotasse esse sistema, teríamos algumas situações curiosas. Em 2025, por exemplo, o Flamengo poderia ser considerado bicampeão brasileiro (Clausura e Liga), enquanto o Palmeiras ficaria com o título do Apertura. Em 2024, o Botafogo teria alcançado três conquistas nacionais em um único ano. Esse exercício simples já evidencia diferenças importantes na forma como se atribui valor aos troféus.

Mas onde se encaixa o Campeonato Carioca nessa análise? Para responder adequadamente a essa pergunta, é necessário revisitar a história do futebol argentino.

O campeonato nacional argentino foi criado em 1891 durante a era amadora e muito antes da implementação de competições nacionais no Brasil. Contudo, pode-se considerar esse torneio realmente um campeonato nacional? Na prática, não; apenas clubes de Buenos Aires e alguns poucos da região próxima participavam.

Diante desse cenário, os títulos argentinos podem ser comparados aos antigos Campeonatos Cariocas, que também eram disputados majoritariamente por equipes da capital e algumas poucas cidades vizinhas como Niterói e Petrópolis. Isso não diminui sua relevância: tanto o torneio argentino quanto o carioca eram competições elitizadas com os melhores clubes disponíveis reunidos.

Durante a década de 1930, equipes de Santa Fe começaram a participar do campeonato argentino (incluindo clubes de Rosario e da cidade homônima). Curiosamente, essa mudança coincidiu com o surgimento do Torneio Rio-São Paulo no Brasil. Nesse contexto, o campeonato argentino se assemelhava ao Rio-São Paulo em formato e abrangência: ambos envolviam times das capitais e regiões economicamente significativas (São Paulo e Santa Fe), mas ainda não eram totalmente nacionais.

Apenas em 1967 a Argentina estabeleceu um campeonato nacional verdadeiramente abrangente. Mesmo assim, manteve seu torneio tradicional sob o nome Campeonato Metropolitano. Durante um período houve coexistência entre dois campeonatos anuais: o Metropolitano (para clubes das áreas centrais) e o Nacional (mais abrangente). Ambos eram considerados títulos argentinos.

Com a consolidação da liga nacional argentina, a tradição de múltiplos campeões foi preservada através dos torneios Apertura e Clausura, onde cada turno passou a valer como um título independente.

Agora vale refletir sobre uma recente partida entre Racing e Botafogo pela Copa Sul-Americana: de um lado estava um clube com 18 títulos argentinos e do outro um com apenas 3 títulos brasileiros. Mas como seria essa comparação se alterássemos os critérios?

Caso retirássemos da contagem do Racing os títulos conquistados quando apenas clubes da província de Buenos Aires competiam, seriam aproximadamente 15 conquistas eliminadas. Restariam apenas três títulos genuinamente nacionais ou até menos se considerássemos algumas vitórias obtidas em formatos fora da tabela geral.

No entanto, se adotássemos o modelo argentino para contabilizar no Brasil, só em 2024 O Botafogo teria três títulos nacionais. E se incluíssemos também os Campeonatos Cariocas e os Torneios Rio-São Paulo antes da criação do Brasileirão sob uma lógica similar? O clube poderia contabilizar cerca de vinte títulos nacionais conforme as diretrizes argentinas.

Esse exercício não busca redefinir as formas atuais de contabilização dos troféus nem propor revisões históricas — debate que já está bem estabelecido — mas sim destacar aspectos históricos relevantes e ressaltar que competições hoje subestimadas como o Campeonato Carioca foram fundamentais para moldar a história do futebol brasileiro e merecem reconhecimento especial por parte dos torcedores.

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