A segunda edição do CREA AQUI 2026, marcada para 19 de março, no Píer Mauá, vai colocar a agronomia no centro do debate sobre desenvolvimento econômico no Estado do Rio de Janeiro. O foco será um segmento que vem ganhando peso no interior fluminense: a produção artesanal de alto valor agregado, com destaque para queijos, vinhos, cafés e cachaças.
Com o painel “Agronomia em Sabores – Ciência que se Degusta”, o CREA-RJ quer mostrar que o sucesso desses produtos não depende de improviso. Por trás da valorização de rótulos e marcas premiadas, estão manejo técnico, biotecnologia, controle sanitário, inovação e cuidado ambiental. No campo fluminense, a agronomia passou a dialogar também com o turismo rural e com novos arranjos produtivos.
Esse movimento já aparece nos números. Pesquisa do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq-USP) apontou crescimento de 16,8% na participação do agronegócio no PIB fluminense entre 2017 e 2020, chegando a R$ 32,5 bilhões. Em 2017, o setor movimentava R$ 27,86 bilhões, o equivalente a 4,15% da economia estadual.
No caso do Rio de Janeiro, o agronegócio tem uma característica própria. O maior peso está nos segmentos de pós-porteira. Os agrosserviços respondem por 47,6% do PIB do setor, seguidos pela agroindústria, com 40,1%, e pela agropecuária, com 11,3%. O ramo agrícola representa 73% do PIB do agronegócio fluminense, com R$ 20,24 bilhões, enquanto o pecuário responde por 27%, ou R$ 7,62 bilhões.
Entre as atividades com maior retorno econômico, aparecem o cultivo de hortaliças, com destaque para tomate, aipim e alface, além da criação de bovinos de corte e de leite. Ao mesmo tempo, cresce o interesse por produtos ligados à experiência, à identidade regional e ao consumo especializado.
No interior do estado, esse novo agro se mistura com turismo, gastronomia e pequenas rotas de experiência. Regiões como o Vale do Café e áreas da serra fluminense passaram a atrair visitantes por meio de cafés especiais, queijos artesanais, cachaças premium e vinhos produzidos em escala menor, mas com forte apelo de qualidade e origem.
Para o presidente do CREA-RJ, Miguel Fernández, a proposta do evento é justamente tornar mais visível esse braço da atuação do Conselho. “Muitas vezes quando a gente fala do CREA, esse ‘A’, que significa Agronomia, não fica caracterizado junto à sociedade. Mas a agronomia tem influência direta no desenvolvimento econômico, social e ambiental do nosso país, e não poderia ser diferente no Estado do Rio de Janeiro”, afirma Miguel Fernández.
Ele lembra que a atividade movimenta mais de R$ 30 bilhões por ano no estado e envolve milhares de profissionais, inclusive engenheiros registrados no Conselho. “Há uma sinergia muito forte e a gente quer trazer um pouco dos grandes empreendimentos e grandes produtos da agronomia fluminense para serem apresentados no nosso Conselho”, diz Miguel Fernández.
Além do painel, o evento terá uma feira com mais de 20 estandes de produtos regionais, selecionados em parceria com a Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento. A proposta é apresentar ao público parte da produção que vem ajudando a reposicionar a imagem do campo fluminense.
O secretário estadual de Agricultura, Felipe Brasil, será o moderador do painel “Agronomia em Sabores – Ciência que se Degusta”. Para ele, o encontro ajuda a mostrar uma agricultura mais conectada com boas práticas e com novos modelos de negócio. “O painel da Agronomia vai apresentar produtores agrícolas familiares com as melhores práticas de agronomia, meio ambiente e turismo”, observa Felipe Brasil.
Entre os convidados estão Alexandre Hargreaves, do Ateliê do Queijo, em Casimiro de Abreu; Fabricio Le Draper Vieira, do Capril do Lago, em Valença; Marcelo Maturano, da Vinícola Maturano; e Maurício Arouca, da Vinícola Arouca, em Areal. O grupo vai discutir a expansão de um roteiro de vinícolas do estado, lançado oficialmente no ano passado pela Associação dos Vitivinicultores da Serra Fluminense (AVIVA) e pela prefeitura de Areal.
Na produção de vinhos, a conversa deve passar por técnicas como a dupla poda em vinhedos de altitude e pelo papel crescente dos engenheiros agrônomos no acompanhamento das lavouras e da vinificação. O objetivo é mostrar que o vinho produzido no estado tem base técnica e projeto de longo prazo.
Dono da Vinícola Arouca, Maurício Arouca resume esse processo de forma direta. “O vinho, no fim das contas, é isso: ciência que a gente degusta. Tem solo, clima, manejo, irrigação, fitossanidade, processos, controle de qualidade, rastreabilidade e inovação — nada disso acontece no improviso”, afirma Maurício Arouca.
Para ele, o evento ajuda a reforçar o papel da engenharia e da agronomia na geração de desenvolvimento. “A engenharia e a agronomia precisam aparecer não só quando dá problema, mas quando entregam soluções, quando geram desenvolvimento e melhoram a vida das pessoas”, diz Maurício Arouca.
O empresário destaca ainda o projeto que vem sendo estruturado em Areal. “Quando você planta 40 mil pés de uva, estrutura uma vinícola para vinificação própria, cria um centro de experiências como a Casa Vinnus, e agora está finalizando a Vila Vinnus para hospedagem, você não está só construindo um destino: você está ajudando a organizar uma nova vocação econômica para a região, com mais renda, mais oportunidade e mais futuro”, afirma Maurício Arouca.
Outro nome do painel, Marcelo Maturano, aposta no avanço da viticultura na serra. “Vamos falar sobre a inovação tecnológica de agricultura no cultivo de vinhedos na Região Serrana do Rio e em Teresópolis, que acontece a 950 metros de altitude. Ali empregamos a técnica da dupla poda”, conta Marcelo Maturano.
Segundo ele, a Vinícola Maturano foi projetada para produzir 320 mil garrafas e faz parte de um complexo voltado ao enoturismo, com gastronomia, arquitetura contemporânea e a construção de um hotel cinco estrelas em Teresópolis.
Mas o painel não vai girar só em torno dos vinhos. O queijo artesanal também terá espaço de destaque. Em Valença, o Capril do Lago, de Fabricio Le Draper Vieira, virou referência nacional e internacional. O produtor vai abordar como o queijo artesanal ganhou relevância econômica no estado e ajudou a consolidar a cidade como uma potência do setor.
“Vamos mostrar como o queijo artesanal se tornou importante para a atividade econômica do estado, o que tornou Valença a segunda maior bacia leiteira do estado e a capital do queijo, com mais de 200 receitas autorais. O queijo artesanal hoje é patrimônio cultural e imaterial do Estado do Rio graças a uma lei”, afirma Fabricio Le Draper Vieira.
O produtor comanda uma fazenda com rebanhos de cabras e vacas e coleciona reconhecimentos importantes. Entre eles está a presença de um queijo de cabra do Capril do Lago na lista dos 12 melhores queijos do mundo do Mondial du Fromage,