O emblemático Zicartola, que encerrou suas atividades há seis décadas, está prestes a reabrir no Centro do Rio de Janeiro. Sob a liderança do empresário boêmio Raphael Vidal, conhecido por seus outros estabelecimentos gastronômicos no Largo da Prainha, Beco das Sardinhas e recentemente na Rua da Carioca, o projeto busca resgatar um casarão histórico, mantendo viva a tradição da boa comida e do samba, como faziam Dona Zica e Cartola.
O Zicartola original funcionou por apenas 20 meses, entre 1963 e 1965, deixando uma marca indelével na cena musical brasileira. No sobrado da Rua da Carioca nº 53, artistas renomados como Ismael Silva, Nelson Cavaquinho e Zé Kéti se apresentaram, enquanto a casa também foi palco para o surgimento de novos talentos, como o jovem Paulinho da Viola, que começou a carreira ali. O restaurante de Dona Zica era conhecido por seus pratos caseiros bem preparados, e o salão se transformava em um cenário de noites memoráveis e encontros históricos entre sambistas e artistas da bossa nova.
O Zicartola foi um ponto de resistência política nos primeiros meses do regime militar em 1964. Reuniões clandestinas contra o governo eram realizadas nas mesas do casarão, que também sediava lançamentos de livros e debates culturais em defesa da música brasileira em meio à invasão crescente de músicas estrangeiras. O encerramento das atividades em maio de 1965 ocorreu devido a problemas administrativos (alguns apontam pressão dos militares como fator adicional). Posteriormente, houve uma tentativa de reabertura por Jackson do Pandeiro, com um conceito de restaurante nordestino, porém sem sucesso. Atualmente, uma placa discreta na rua da Carioca mantém viva a importância histórica da antiga pensão.
Para ressuscitar o Zicartola, o empresário conta com a expertise de historiadores como Thiago Gomide e Maurício de Barros de Castro, biógrafo do casal, e com a colaboração da produtora Cecília Rabillo, com o objetivo de recriar a atmosfera única do reduto da Boemia Carioca. A ideia é preservar o samba e a gastronomia como elementos essenciais da experiência.
E as novidades não param por aí. A Sete Léguas Filmes está buscando recursos para produzir um documentário sobre o Zicartola, sob a direção de Emílio Domingos e João Inada. Com depoimentos, arquivos e participações de artistas da nova MPB e antigos compositores de samba, o filme promete reavivar o espírito da casa em histórias lendárias e destacar como um espaço efêmero, operante por apenas 20 meses, teve um impacto profundo na história cultural do Rio de Janeiro.
O legado do Zicartola também é reverenciado no carnaval: em 2011, a Mangueira prestou uma homenagem a Nelson Cavaquinho e incluiu referências à casa em seu desfile, com menções na letra do samba-enredo e em um carro alegórico, ressaltando a importância do reduto de Dona Zica e Cartola mesmo após décadas de seu fechamento.