Um Repórter que Viveu a História do Rio de Janeiro
Aos 82 anos, Luarlindo Ernesto é um personagem praticamente lendário do jornalismo carioca. Desde 1958, este experiente repórter circula por todos os cantos do Rio de Janeiro, acumulando histórias que mais parecem saídas de um romance de ficção. Sua trajetória singular ganhou vida em forma de biografia intitulada “Luar – O último repórter dos anos de chumbo”, escrita pela jornalista Elenilce Bottari, que resolveu documentar a fascinante carreira deste profissional que continua militando no ofício aos 82 anos.
A história de Luarlindo é peculiar desde o início. Filho postiço do bicheiro-mor de São Cristóvão, na Zona Norte, foi praticamente obrigado a se tornar jornalista como castigo imposto pelo seu padrasto Antenor. O motivo? Aos 14 anos, o jovem gostava de jogar bola na rua apenas de cueca, algo que prejudicava a reputação do influente contraventor. O que começou como punição se transformou em uma das carreiras mais memoráveis da imprensa brasileira.
A Corrupção Aprendida em Casa
Criado por um contraventor notório, Luarlindo aprendeu desde cedo como funciona a engrenagem de trocas espúrias que comanda boa parte da sociedade carioca. Presenciava dentro de casa as negociações entre seu avô bicheiro e a polícia, vivência que o repórter descreve como um misto de “escola de malandragem e Sítio do Pica-pau Amarelo”. Essa formação singular o preparou perfeitamente para uma carreira jornalística que o colocaria no centro de alguns dos eventos mais turbulentos da história do Rio de Janeiro.
A biografia de Elenilce Bottari utiliza uma estratégia editorial inteligente, contrapondo histórias das antigas com comentários atuais do biografado. Dessa forma, foge da narrativa cronológica tradicional e dá viva voz ao humor caracteristicamente carioca de Luar. O próprio repórter costumava se disfarçar de vendedor de limões para conseguir informações nas ruas, seguindo seu lema pessoal: “todo repórter tem que ir aonde o povo está”.
Testemunha de Crimes e Violência Urbana
A trajetória de Luarlindo coincidiu com momentos de extrema violência e insegurança pública no Rio de Janeiro. Em 1964, acompanhou de perto a morte do famoso bandido Cara de Cavalo, testemunhando um episódio de crueldade que marcou a história criminal carioca. Os repórteres presentes foram obrigados a atirar no cadáver do meliante com a arma do policial falecido. “Eu fui o primeiro a atirar e o último a falar, preso de violenta emoção”, relembra Luarlindo.
Sua conexão com o submundo carioca não se limitava a perseguições de criminosos. Luarlindo foi amigo de infância de Lúcio Flávio Vilar Lírio, um dos foragidos mais famosos do Brasil, que posteriormente recebeu uma cinebiografia. Esses encontros casuais geraram histórias curiosas que demonstram o quão entrelaçada era a vida do repórter com os acontecimentos que cobria.
Um feito particularmente importante de Luarlindo foi a publicação de uma reportagem em 1982 que levou à captura do mafioso e narcotraficante italiano Tommaso Buscetta, que vivia escondido no Brasil. Sua reportagem possibilitou a extradição do criminoso para a Itália, mostrando o impacto real do trabalho jornalístico de qualidade.
Alma Boêmia e Vida nas Redações
Nem tudo na vida de Luarlindo foi tiro, porrada e bomba. Sua alma boêmia e seu jeitão mulherengo renderam-lhe muitos casos amorosos e momentos de alegria. A biografia é generosa em histórias ocorridas nas redações cariocas e nos convescotes entre amigos, funcionando também como um retrato vivo da própria imprensa da cidade nas últimas seis décadas. Essas narrativas revelam um lado mais humano do repórter, além das aventuras perigosas que marcaram sua carreira.
O Forrest Gump Brasileiro
O diretor José Francisco Tapajós, que em 2023 lançou o filme “Com as próprias mãos” focado no repórter, capturou perfeitamente a essência de Luarlindo com uma comparação memorável: “O Luarlindo é o nosso Forrest Gump brasileiro. Parece que tudo o que aconteceu no Brasil nos últimos anos… você pergunta, e ele estava lá.” A alcunha é merecida para quem testemunhou e participou ativamente de tantos momentos históricos da cidade maravilhosa.
A biografia será lançada na Associação Brasileira de Imprensa, consolidando o legado deste último dos moicanos da imprensa sensacionalista que revolucionou o jornalismo dos anos 1950 e continuou marcando presença nas redações cariocas por décadas.