A Jornada de ‘La Casa de Papel’: Do Cancelamento ao Fenômeno Global
Enquanto Javier Gómez Santander, chefe de roteiro e produtor-executivo da série espanhola ‘La casa de papel’, percorre os corredores do Rio2C, evento criativo que ocorre na Cidade das Artes, uma curiosa ironia marca sua trajetória: a série que hoje é um dos maiores fenômenos do catálogo da Netflix começou como um estrondoso fracasso. Durante sua participação no painel ‘O valor da criação’, ao lado da roteirista francesa Noèmi Saglio e do brasileiro Cauê Laratta, Javier revelou os bastidores dessa transformação surpreendente.
A produção foi inicialmente exibida pela emissora espanhola Antena 3, no início de 2017, dividida em duas partes que não alcançaram os resultados esperados. O cancelamento parecia iminente, e a continuação da história de Professor, Berlim e seu ambicioso plano de assalto à Casa da Moeda corria risco de nunca ser concluída. No entanto, a Netflix adquiriu a série para seu catálogo global no final daquele ano, transformando completamente seu destino.
A Sorte Como Fator Determinante do Sucesso
Segundo Javier, essa transformação não foi apenas resultado da qualidade da criação, mas de um elemento crucial frequentemente subestimado: a sorte. ‘No nosso trabalho, por mais que você faça as coisas bem, sempre há uma grande incerteza de como vai funcionar’, afirmou durante conversa com o GLOBO. O roteirista ressaltou que, para ter sucesso no setor audiovisual, é necessário não apenas talento e dedicação, mas também estar no lugar certo, no momento certo.
Ironicamente, o público-alvo da série havia abandonado a televisão linear tradicional. Muitos amigos de Javier não assistiam ‘La casa de papel’ na Antena 3 justamente porque preferiam plataformas de streaming. A narrativa de roubo e suspense se adaptou perfeitamente ao formato de binge-watching oferecido pela Netflix, criando as condições ideais para seu fenômeno viral global.
A Recusa em Continuar: Encerramento Criativo
Hoje, enquanto o spin-off ‘Berlim e a Dama com Arminho’ se destaca como a série de língua não inglesa mais vista globalmente na Netflix, Javier mantém uma postura clara sobre seu envolvimento com o universo de ‘La casa de papel’. Ele não assistiu ao spin-off nem à versão sul-coreana da produção, preferindo encerrar seu envolvimento criativo após a conclusão da quinta temporada.
Após mais de cinco anos dedicados à história do maior assalto da história da Espanha, Javier sentiu que seu trabalho estava completo. A exaustão criativa o levou a não querer explorar novos personagens, spin-offs ou possíveis continuações. Essa decisão contrasta com as práticas contemporâneas de expandir universos narrativos indefinidamente, demonstrando uma escolha artística deliberada sobre quando encerrar uma história.
Disparidades nos Direitos Autorais: Brasil vs. Europa
Uma questão importante levantada por Javier durante o Rio2C refere-se às diferenças significativas na proteção dos direitos autorais entre países. Apesar do sucesso monumental de ‘La casa de papel’ no Brasil, Javier não recebe pagamentos recorrentes cada vez que a série é exibida na plataforma brasileira, diferentemente do que ocorre em seu país de origem.
No modelo audiovisual espanhol e europeu, roteiristas recebem residuals, compensações contínuas pela reexibição de suas obras. No Brasil, porém, o sistema opera de forma fundamentalmente diferente. Os criadores assinam uma cessão de direitos com pagamento fixo durante o desenvolvimento do roteiro, mas o mercado nacional não prevê, de forma estruturada, o pagamento recorrente a cada reexibição, independentemente da plataforma utilizada.
Crítica ao Tratamento Injusto dos Roteiristas Brasileiros
Javier não poupou críticas a essa disparidade. ‘O verdadeiro problema é que os roteiristas brasileiros não recebem os direitos do mercado nacional, que deveria cuidar deles’, afirmou o criador espanhol. Ele considerou o Brasil como um dos mercados mais importantes do mundo cinematográfico e audiovisual, justamente por ser o único que trata seus criadores de forma tão injusta quando se trata de compensação por sucesso.
Atualmente, a França é o país do qual Javier mais recebe compensações por direitos autorais. A União Europeia enfrenta debates intensos sobre direitos autorais, mas mantém estruturas de proteção mais robustas para criadores. Javier caracteriza a luta por direitos autorais como um conflito entre pessoas com poder na indústria e criadores, que são muito menores em termos de poder de negociação.
Inspiração Criativa Brasileira e Novos Projetos
Apesar das críticas ao sistema de direitos autorais no Brasil, Javier expressa admiração genuína pela narrativa brasileira, especialmente no gênero de histórias criminais. Os brasileiros conquistam uma verdade particular no contar histórias do mundo do crime, diferente do espetáculo visual que caracterizou ‘La casa de papel’.
Entre suas séries favoritas estão ‘Dom’, ‘Impuros’ e ‘Irmandade’, todas produções que exploram narrativas brasileiras complexas. Essa admiração traduz-se em seus projetos atuais: Javier está à frente de três produções confidenciais em México, Espanha e Argentina, investindo no gênero de ‘baseado em fatos reais’.
Suas abordagens criativas são influenciadas por sua experiência anterior como jornalista de televisão. ‘Investigamos algo como jornalistas e construímos como roteiristas, mas de forma ficcional’, resume sua metodologia. Essa fusão entre apuração jornalística rigorosa e narrativa ficcional promete continuar marcando sua carreira nos próximos projetos.