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Documentário Itacoatiaras Revela Passado Indígena de Niterói em Festival de Cinema Ambiental na Espanha

por amandaclark

Um Legado Indígena Esquecido em Itacoatiara

Itacoatiara, uma das praias mais encantadoras de Niterói localizada na Região Oceânica da cidade, guarda em seu nome e nas pedras ao longo da costa uma história ancestral que poucos visitantes conhecem. O termo, originário do tupi-guarani, significa literalmente “pedra pintada, esculpida ou riscada”, revelando as marcas deixadas pelos povos originários que habitaram a região durante séculos. Este importante patrimônio cultural agora ganha destaque internacional através de um documentário inovador que examina as profundezas históricas deste lugar singular.

Itacoatiaras: Um Filme que Conecta Dois Mundos

O documentário “Itacoatiaras” é fruto da colaboração entre o cineasta amazonense Sérgio Andrade e a pesquisadora e artista fluminense Patricia Goùvea. A produção estabelece um diálogo fascinante entre dois espaços de mesmo nome: a Itacoatiara fluminense em Niterói e a região homônima localizada na área metropolitana de Manaus. Através de uma abordagem investigativa profunda, o filme explora como estas localidades compartilham não apenas denominações idênticas, mas também uma herança de ancestralidade indígena que foi sistematicamente apagada pela colonização portuguesa ao longo de séculos.

A narrativa do documentário transcende a simples comparação geográfica. Ele revela as realidades e desafios contemporâneos distintos que cada Itacoatiara enfrenta, ao mesmo tempo que demonstra as ligações espirituais e históricas que as unem. Além disso, a produção levanta questões críticas sobre a fragilidade ambiental de ambos os territórios e a urgência de sua preservação.

A Importância da Preservação Territorial e Arqueológica

Patricia Goùvea, que possui uma conexão pessoal profunda com a Itacoatiara fluminense frequentada desde a infância e onde reside há três anos, enfatiza a importância vital da preservação destes sítios. “O filme mostra como os territórios são importantes para a gente, como precisamos defender os sítios arqueológicos, a nossa natureza, ou tudo vai acabar. Se a gente deixar à mercê da especulação imobiliária tudo vai ser destruído. A história do Rio de Janeiro é de sucessivo apagamento”, destaca a diretora. Ao produzir o documentário, Patricia conseguiu compreender o motivo pelo qual sempre sentiu uma profunda conexão espiritual ao visitar Itacoatiara, um sentimento compartilhado por muitos frequentadores da praia.

Segundo a diretora, o documentário revela aspectos espirituais únicos do lugar: “O documentário mostra que foi um lugar de passagem dos ancestrais. As pedras de Itacoatiara são lugares de conexão com o sagrado, através dos povos originários”. Esta perspectiva ressignifica a experiência de estar naquele espaço, transformando-o de simples balneário em um local de profundo significado cultural.

O Patrimônio Indígena de Niterói

O escritor e jornalista Rafael Freitas da Silva, autor de “O Rio antes do Rio”, livro que serviu como base para as pesquisas do filme e que também participa da produção, reafirma que a conexão com a ancestralidade indígena não se limita apenas a Itacoatiara. Niterói inteira carrega este legado em sua geografia e nomenclatura. “Há fontes históricas que apontam Niterói como uma antiga comunidade tupinambá. A costa da cidade, interiores, lagoas e toda a área que vai até a Região dos Lagos esteve sob domínio total dos tupinambás durante pelo menos 2 mil anos. Ali eles criaram o que podemos chamar de civilização tupinambá, com as aldeias e as estradas que as ligavam”, explica Rafael.

O pesquisador ressalta que os nomes de diversos bairros niteroienses têm origem indígena, entre eles Pendotiba, Itaipuaçu, Piratininga, Jurujuba e Icaraí. Muitos frequentadores da cidade naturalizaram essas denominações sem questionar suas origens milenares. Rafael propõe uma interpretação ainda mais profunda para o nome Itacoatiara: “Ita é ‘pedra’ e coatiara seria ‘riscada’. Mas essa segunda palavra tem muitos outros significados. Pode ser atribuída também a coisas feitas a mão ou certas marcas. Minha hipótese é que Itacoatiara era um lugar de culto dos caraíbas tupinambás, que tinham marcas específicas nas pedras, que eles mostravam para os jesuítas, as marcas dos deuses que estavam à beira-mar”.

Trajetória do Documentário: De 2021 ao Reconhecimento Internacional

A jornada de “Itacoatiaras” começou em 2021, ainda durante o período de pandemia. A produção enfrentou uma interrupção significativa de três anos devido a limitações orçamentárias, mas foi retomada em 2024 e concluída no primeiro semestre de 2025. Após seu lançamento no segundo semestre de 2024, o filme teve sua estreia mundial no Festival de Cinema Latino-americano de Estocolmo, na Suécia, consolidando sua relevância internacional.

Desde então, o documentário participou de importantes mostras e competições nacionais e internacionais, incluindo o Festival do Rio do ano passado, onde foi exibido na Mostra COP 30. Este reconhecimento evidencia a importância da obra para as discussões contemporâneas sobre patrimônio, meio ambiente e justiça histórica.

Participação no Ecozine: Festival de Cinema Ambiental na Espanha

Atualmente, “Itacoatiaras” compete no festival Ecozine, um prestigiado evento internacional de cinema ambiental que ocorre em Zaragoza, na Espanha. Patricia Goùvea viajou para a Espanha para participar pessoalmente da mostra. Na competição, o filme brasileiro disputa com outros sete longas-metragens de cineastas mundiais que exploram emergência climática, meio ambiente e possíveis futuros sustentáveis. Patricia agradece o apoio oferecido pela embaixada do Brasil na Espanha e pelo Instituto Guimarães Rosa, que tornaram esta participação possível.

Na cidade de Zaragoza, serão realizadas duas sessões seguidas de debates com o público. A primeira acontecerá na segunda-feira às 10h30 na Aula Magna da Faculdade de Filosofia e Letras, e a segunda terça-feira às 20h na Filmoteca de Zaragoza. Para este semestre, a diretora planeja levar o documentário para outros festivais de cinema ambiental, expandindo seu alcance e impacto na discussão global sobre preservação ambiental e patrimônio indígena.

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