Durante o Maio Amarelo, uma campanha dedicada à segurança no trânsito, a Semove destacou um aumento preocupante na utilização de motocicletas para transporte de passageiros via aplicativos na cidade do Rio de Janeiro. A entidade, que representa 174 empresas de ônibus no estado, enfatiza que a ausência de regulamentação para esse serviço agrava a insegurança viária e sobrecarrega o sistema de saúde pública.
Dados do Corpo de Bombeiros revelam que 77% dos acidentes de trânsito na capital estão relacionados a motos. Isso equivale a um incidente a cada 25 minutos.
A situação se reflete nos atendimentos realizados pela rede municipal de saúde. A Semove informa que, em média, 80 pessoas ficam feridas diariamente em acidentes envolvendo motocicletas, tornando essa questão um grave problema de saúde pública.
Discussão sobre aplicativos e regulamentação
A entidade critica a expansão descontrolada do transporte por motos através de aplicativos. De acordo com a Semove, há uma carência de informações fundamentais, como a quantidade de profissionais atuando nesse setor e critérios claros para fiscalização.
Os operadores de ônibus também expressam preocupação crescente. Segundo dados da entidade, as colisões envolvendo motos já correspondem a até 50% dos acidentes registrados em várias vias da Região Metropolitana do Rio.
A Semove argumenta que a migração dos passageiros do transporte coletivo para as motocicletas coloca muitos cidadãos em situações mais vulneráveis. A entidade defende ainda investimentos em infraestrutura para tornar as viagens de ônibus mais rápidas, regulares e previsíveis.
“A troca dos ônibus pela vulnerabilidade das motos é um indicativo claro da necessidade urgente de melhorias no sistema de mobilidade. Ao escolherem as duas rodas em vez do transporte coletivo, os cidadãos se expõem a riscos extremos na busca por uma suposta agilidade que pode custar suas vidas”, declarou Eunice Horácio, gerente de Mobilidade da Semove.
Faixas exclusivas para motos: uma possível solução?
A discussão também abrange propostas para criar faixas exclusivas destinadas às motocicletas. A Semove menciona um estudo intitulado Impacto da Faixa Azul na Segurança Viária, realizado por pesquisadores da USP e da Universidade Federal do Ceará, para investigar se essa abordagem realmente diminui os acidentes.
Conforme apontado pela pesquisa citada, intervenções como a Faixa Azul em São Paulo podem ter efeitos adversos. O estudo observou um aumento médio entre 100% e 120% nos acidentes fatais em cruzamentos. Além disso, nos trechos onde o fluxo era livre, a velocidade média aumentou de 58,3 km/h para 72,2 km/h, representando um crescimento significativo de 24%.
A Semove conclui que esses dados sugerem que separar faixas não deve ser vista como uma solução automática. A entidade propõe que qualquer alteração na circulação das motos seja acompanhada por planejamento adequado, fiscalização rigorosa e avaliações técnicas detalhadas.
A entidade preconiza engenharia, educação e fiscalização como pilares essenciais
A gerente de Mobilidade da Semove ressalta que para reduzir os acidentes é necessário atuar em três frentes: engenharia, educação e fiscalização.
No aspecto da engenharia, o foco deve ser na melhoria da infraestrutura e na atratividade do transporte coletivo, visando diminuir o deslocamento dos passageiros para modais mais arriscados.
Em termos educativos, a organização defende campanhas contínuas sobre os perigos associados ao uso das motocicletas, especialmente quando comparadas aos sistemas coletivos estruturados. Quanto à fiscalização, propõe-se intensificar o controle sobre limites de velocidade, regularidade das habilitações e comportamentos dos motociclistas nas vias.
A Semove enfatiza que o crescimento do uso das motos no transporte de passageiros não deve ser visto apenas como uma escolha individual. A entidade considera que esse fenômeno reflete falhas sistêmicas na mobilidade urbana e demanda respostas coordenadas das autoridades públicas.