Novo Programa de Ordenamento da Orla Divide Opiniões
O prefeito Eduardo Cavaliere anunciou um ambicioso programa de Tolerância Zero para ordenar as atividades de comércio ambulante na orla do Rio de Janeiro. A política entrará em vigor no próximo dia 16, estendendo-se entre o Leme e o Leblon, com fiscalização ininterrupta 24 horas por dia. A iniciativa inclui patrulhamento ostensivo, pontos de controle de acesso, ações preventivas, apreensão de mercadorias sem comprovação de origem e combate aos depósitos clandestinos que alimentam o comércio irregular.
O anúncio repercutiu significativamente entre a população, gerando reações polarizadas. Enquanto moradores celebram a chegada da fiscalização permanente, ambulantes que dependem das vendas na praia expressam profunda preocupação com suas possibilidades de subsistência.
Ambulantes Expressam Temor pelo Sustento
Uma vendedora de 60 anos, que trabalha com biquínis na praia de Ipanema há cinco anos, revela a ansiedade que toma conta dos comerciantes informais. Carregando aproximadamente 200 peças diariamente, ela vende seus produtos a R$ 70,00 cada um. Sem aposentadoria e dependentes financeiros, sua renda provém exclusivamente dessa atividade. A vendedora demonstra preocupação genuína quanto ao seu futuro caso perca a capacidade de comercializar suas mercadorias na orla.
A situação se repete entre outros ambulantes. Cherif Sow, um senegalês de 66 anos que vende artesanatos desde 2013, também expressa incerteza sobre como se manterá após o início do programa. Ele comercializa pulseiras de couro, colares e esculturas de madeira, complementando sua renda mensal com essas vendas.
Preocupações com Falta de Informação
Os ambulantes relatam falta de clareza sobre as novas regras e seus direitos. Muitos sentem-se desamparados pela prefeitura, sem informações precisas sobre como poderão se regularizar ou se continuarão com suas atividades. Essa insegurança alimenta o clima de incerteza entre os comerciantes informais.
Moradores Comemoram Fiscalização Permanente
Por outro lado, os residentes de Copacabana demonstram entusiasmo com a iniciativa. Tony Teixeira, presidente da AMACOPA, afirma que os moradores estão satisfeitos com a chegada do programa. Ele ressalta que Copacabana é um cartão-postal da cidade e que os turistas precisam perceber que existe ordem e lei no bairro.
A associação também aprova a utilização do edifício na Rua Teixeira de Melo número 76, que contará com 20 andares e funcionará como depósito público para equipamentos e mercadorias dos trabalhadores autorizados.
Estrutura e Operacionalização do Programa
O programa Tolerância Zero contará com 138 agentes da Secretaria Municipal de Ordem Pública atuando em duplas nos turnos de 12 horas. A orla foi dividida em 69 pontos estratégicos de monitoramento, com distribuição específica: 30 pontos entre Leme e Copacabana, 21 equipes em Ipanema, 15 no Leblon e 3 no Arpoador.
A fiscalização utilizará recursos tecnológicos avançados, incluindo câmeras do Centro de Operações Rio, drones e coordenação com forças estaduais de segurança para identificar depósitos clandestinos e rotas de abastecimento.
Desapropriação de Imóveis para Estrutura de Apoio
A prefeitura desapropriou dois imóveis que funcionarão como depósitos públicos exclusivamente para ambulantes regularizados. Um localiza-se na Rua Teixeira de Melo 95 em Ipanema, e outro na Rua Miguel Lemos 76 em Copacabana. Segundo Cavaliere, ambos estavam desocupados e agora oferecerão estrutura adequada para trabalhadores que atuam dentro da legalidade.
Combate à Exploração pelo Crime Organizado
O prefeito enfatiza que o foco não é punir trabalhadores, mas combater a exploração ilegal do espaço público pelo crime organizado. A prefeitura identificou 22 depósitos clandestinos que movimentam aproximadamente R$ 100 milhões por ano mediante aluguel de pontos de venda, depósitos e equipamentos. Estima-se ainda a existência de mil pontos de venda ilegais entre Leme e Leblon.
O secretário de Segurança Pública do Estado, Victor Santos, menciona que a estratégia se inspira na teoria das janelas quebradas adotada em Nova York na década de 1990, demonstrando como a preservação da ordem urbana contribui para reduzir outros tipos de criminalidade.
Expansão Futura do Programa
Cavaliere indica que o programa será gradualmente expandido para outras áreas da cidade, incluindo Centro, Barra da Tijuca e Recreio, conforme diagnósticos realizados pelos órgãos municipais. A intenção é estabelecer um padrão permanente, estruturado e planejado para desarticular atividades econômicas ilegais em toda a cidade.
