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Tia Gessy: Quase 50 Anos Comandando a Roda de Samba que Revelou Xande de Pilares e Grandes Nomes do Rio

by Guilherme Salles

Uma Matriarca que Transformou um Quintal em Lenda da Música Carioca

Na longa tradição de festejos em sobrados, quadras e terreiros do Rio de Janeiro, os títulos frequentemente chegam mais tarde. Gessy Soares Machado descobriu seu destino aos 25 anos, quando passou a ser conhecida como Tia Gessy. Na época, ela comandava uma gafieira no Clube Maxwell, em Vila Isabel, na Zona Norte carioca. Porém, incomodada com uma clientela excessivamente formalista e as rígidas regras do estabelecimento, ela começou a sonhar com um espaço diferente, mais descontraído e acessível, onde as pessoas pudessem frequentar de forma natural e sem pretensões.

Esse sonho se materializou em outubro de 1977, quando Tia Gessy encontrou uma casa com quintal no Cachambi, também na Zona Norte. O imóvel, que antes servia como ponto de apuração do jogo do bicho, se transformaria no Pagode da Tia Gessy, uma das rodas de samba mais antigas e continuas da cidade. Neste ano, o local completa 50 anos de funcionamento ininterrupto, consolidando-se como um dos espaços mais importantes para a música popular brasileira.

Do Sonho à Realidade: A Transformação de um Espaço

Nascida em Macaé, no Norte Fluminense, Gessy Soares chegou ao Rio aos 14 anos. Casou-se jovem e teve duas filhas, Janaína e Fátima, que lhe deram três netos, entre eles Amanda Amado, que segue carreira musical em ascensão. Foi no seu segundo casamento que encontrou incentivo para explorar seu talento natural para organizar eventos. Amigos próximos, como Roberto Reis e o radialista Zeno Bandeira, encorajaram-na a criar sua própria gafieira.

Inicialmente, a gafieira da Tia Gessy funcionava no Clube Maxwell às segundas-feiras, mas esse modelo durou apenas três anos. O grande diferencial era que Tia Gessy almejava um ambiente verdadeiramente acessível, onde as pessoas pudessem comparecer de bermuda e chinelo, sem a obrigatoriedade dos trajes formais exigidos nas gafieiras tradicionais. Essa visão revolucionária a levou a buscar um espaço com quintal, onde a informalidade e a autenticidade pudessem reinar.

O Nascimento de uma Instituição Cultural

A casa da Rua São Gabriel, no Cachambi, parecia perfeita para seu projeto. Apesar de seu estado precário e de seu uso anterior duvidoso, Tia Gessy enxergou potencial no imóvel. As rodas começaram às noites de sexta-feira, mas posteriormente migraram para as tardes de domingo, respeitando a crescente vizinhança. Com o tempo, o espaço foi se transformando: as paredes internas foram derrubadas, criando um imenso salão que preservava a essência de um pagode de fundo de quintal.

Ao longo de quase cinco décadas, o Pagode da Tia Gessy testemunhou a evolução da música brasileira e das modas musicais. Começou em plena época das discotecas, enfrentou a onda do funk nos anos 2000, mas nunca perdeu sua identidade. A maior interrupção ocorreu durante a pandemia, quando a roda ficou suspensa por um ano. Mesmo assim, rapidamente retomou suas atividades e continua sendo um espaço sagrado para a música brasileira.

Revelação de Talentos e Encontros Memoráveis

Xande de Pilares, criado localmente, é talvez o maior símbolo do sucesso do Pagode da Tia Gessy. O artista só deixou de tocar nas rodas quando entrou para o Grupo Revelação, mas jamais esqueceu de onde veio. Xande foi responsável pela sonorização da roda, pedindo a Tia Gessy para adquirir caixas de som e microfones, transformando o samba no gogó em uma apresentação mais profissional. Ele recebeu de Tia Gessy discos e vitrolas que enriqueceram seu repertório musical.

Além de Xande, o Pagode da Tia Gessy recebeu passagens memoráveis de gigantes como Almir Guineto, Beth Carvalho, Jovelina Pérola Negra e Arlindo Cruz. Zeca Pagodinho, Jorge Aragão, Seu Jorge, Diogo Nogueira, Marquinhos Sathan e Toninho Geraes também fazem parte do acervo estrelado que pisou naquele terreiro. Dudu Nobre, outra criação local, refere-se a Tia Gessy com profundo respeito, destacando sua representatividade como continuadora da tradição das mulheres que promovem rodas de samba autênticas.

Reconhecimento e Permanência

Em junho, durante o 1º Seminário Nacional das Rodas de Samba, Tia Gessy recebeu reconhecimento por sua contribuição inestimável ao setor. Hoje, não é raro encontrar na plateia do Pagode da Tia Gessy pessoas vindas até do Japão, graças às gravações que correram o mundo e divulgaram este patrimônio imaterial carioca.

A longevidade desta instituição não é coincidência. Como afirma Tia Gessy: “Fui melhorando ao longo dos anos, mas não deixo nunca que se perca a essência do pagode de fundo de quintal”. Neste domingo (5 de julho), o público será recebido para comemorar o aniversário da dona do lugar, com almoço oferecido pela anfitriã — arroz à camponesa com linguiça, carne-seca, repolho, ervilha e cenoura — e entrada gratuita. No cardápio também estão as bebidas, com cerveja a partir de R$ 10.

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