Nova estratégia de vacinação contra a poliomielite
O Ministério da Saúde anunciou a retomada da aplicação de uma segunda dose de reforço da vacina contra a poliomielite em crianças com 4 anos de idade, iniciando-se a partir de 3 de agosto. Essa mudança marca um importante ajuste na estratégia de imunização nacional, utilizando exclusivamente a vacina injetável em todo o processo de vacinação contra a pólio.
Evolução do esquema vacinal brasileiro
Até 2024, o esquema vacinal contra a poliomielite no Brasil era composto por três doses iniciais da vacina injetável aplicadas aos 2, 4 e 6 meses de idade, seguidas por dois reforços com a vacina oral, conhecida popularmente como “gotinha”, administrados aos 15 meses e aos 4 anos. No entanto, em 2024, o Ministério da Saúde iniciou um processo de transição para tornar a imunização contra a pólio exclusivamente injetável, seguindo as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm).
Mudanças implementadas em 2024
Naquele período, os dois reforços com a vacina oral foram substituídos por um reforço único injetável aos 15 meses. Essa decisão foi baseada em discussões técnicas e revisão de estudos sobre a duração da proteção vacinal. Porém, após avaliações mais aprofundadas, o ministério decidiu reintroduzir o segundo reforço aos 4 anos de idade.
Justificativa técnica para o segundo reforço
A decisão de retomar o segundo reforço foi tomada após discussões na Câmara Técnica Assessora em Imunizações (CTAI), um grupo independente que assessora o Ministério da Saúde. Esse órgão conta com representantes de sociedades científicas, conselhos nacionais de secretários estaduais e municipais de Saúde (Conass e Conasems) e da Organização Pan-Americana da Saúde (Opas).
Mônica Levi, presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações, explicou que a revisão da literatura científica e dos dados sobre duração de proteção demonstrou que uma dose na idade pré-escolar é importante para manter a proteção por um período mais longo. Embora alguns países apliquem essa segunda dose aos 7 anos, o Brasil optou por retornar com a aplicação aos 4 anos de idade.
Diferenças entre a vacina oral e injetável
A vacina oral contra a pólio, também conhecida como vacina Sabin, foi desenvolvida pelo microbiologista Albert Sabin na década de 1950. Essa vacina utiliza o vírus enfraquecido e foi extremamente eficaz e simples de aplicar, sendo responsável pelas altas coberturas vacinais em todo o mundo e pela eliminação do vírus em diversos países.
No entanto, a vacina oral apresenta um risco importante: o vírus enfraquecido pode ser eliminado nas fezes das crianças e, ao circular por longos períodos em áreas com saneamento precário, pode sofrer mutações que o permitem causar novamente a paralisia. Esse risco é especialmente preocupante em comunidades com coberturas vacinais baixas.
Vantagens da vacina injetável
A vacina injetável, desenvolvida pelo cientista Jonas Salk, é produzida com uma versão inativada do vírus, ou seja, morto. Essa abordagem elimina o risco de o patógeno sofrer mutações e se disseminar na população. Por essas razões, diversos países têm feito a substituição progressiva da versão oral pela vacina injetável, melhorando a segurança e a eficácia da proteção contra a poliomielite.
Impacto global da vacinação contra a pólio
Antes das campanhas de imunização em larga escala, a pólio matava ou paralisava mais de meio milhão de pessoas pelo mundo a cada ano. Desde o final da década de 1980, porém, os casos caíram 99,9%, segundo dados da OMS, graças aos esforços de vacinação em massa.
Situação no Brasil e perspectivas futuras
O Brasil está há quase 40 anos sem novos casos de pólio. Entre 1968 e 1989, o país registrou 26,8 mil casos da doença. Com a ampliação das campanhas de vacinação iniciadas em 1980, a última infecção foi confirmada no dia 19 de março de 1989, no município de Souza, na Paraíba. Em 1994, o Brasil recebeu a certificação de área livre de circulação do poliovírus selvagem, eliminando oficialmente a doença no território nacional.
Globalmente, o vírus da pólio permanece endêmico apenas em dois países: Paquistão e Afeganistão. Mientras a doença não for erradicada em todo o mundo, existe o risco de reintrodução do vírus em qualquer país, especialmente devido à mobilidade internacional atual. Se o vírus encontrar pessoas suscetíveis não vacinadas, poderá voltar a circular.
Desafios na cobertura vacinal
O Ministério da Saúde estabeleceu uma meta de alcançar 95% de cobertura vacinal contra a pólio, mas esse objetivo não é atingido desde 2016. Segundo dados do Sistema de Informação do Programa Nacional de Imunizações (PNI), o percentual chegou a apenas 76,8% das crianças com as três primeiras doses em 2020. Felizmente, houve melhora: em 2023, 88,2% das crianças receberam o esquema básico e 85,8% foram protegidas com o reforço.
