Home EsportesA Estrada: O Último Álbum de Lô Borges com o Irmão Márcio Vira Premonição de Despedida

A Estrada: O Último Álbum de Lô Borges com o Irmão Márcio Vira Premonição de Despedida

by Guilherme Salles

A Última Colaboração Entre Irmãos

Entre 2019 e 2025, Lô Borges manteve um ritmo frenético de composição, lançando sete álbuns de músicas inéditas — um a cada ano. Seu parceiro mais constante ao longo de décadas havia sido seu irmão Márcio Borges, mas o ritmo acelerado do compositor se tornou incompatível com as possibilidades do letrista. Márcio, que completou 80 anos em janeiro, explicou que nunca conseguiu acompanhar a produtividade extraordinária de Lô, que chegava a compor duas ou três músicas por semana.

Diante dessa realidade, Lô começou a buscar outros parceiros para suas criações. Porém, antes de encerrar a parceria com o irmão, fez um pedido especial: “A nossa saideira nós temos que fazer.” Assim nasceu a ideia de um álbum final com dez composições novas que representassem um fechamento poético de sua trajetória conjunta.

A Estrada: Uma Viagem Conceitual

“A Estrada” (Deck) é um trabalho conceitual elaborado pelos dois artistas, onde todas as faixas formam uma espécie de jornada simbólica. Os títulos das músicas reforçam essa narrativa visual e metafórica: “Pousada”, “18 rodas”, “Encruzilhada” e “Última parada” compõem uma viagem que transcende o musicalmente convencional.

O álbum foi concebido como uma metáfora da vida e da despedida — uma conclusão poética de uma parceria que atravessou décadas. Porém, a realidade transformaria aquela intenção artística em algo muito mais profundo e doloroso.

Uma Morte Inesperada que Transformou a Metáfora em Realidade

Lô Borges (Salomão Borges Filho) faleceu em 2 de novembro de 2024, em uma circunstância completamente inesperada que chocou amigos, família e fãs. O compositor tomou dois medicamentos para dormir que desconhecia serem incompatíveis. Consequentemente, desmaiou, vomitou, e o vômito atingiu os pulmões, levando a uma situação que nem mesmo o esforço dos médicos conseguiu reverter. Lô tinha 73 anos.

Para Márcio, a morte do irmão transformou a metáfora artística em uma “premonição terrível”. O que havia sido concebido como uma representação simbólica de encerramento tornou-se a despedida real e irreversível. Márcio expressou sua dor de forma visceral: “Perdi um amigo, irmão, parceiro, companheiro. Eu era conselheiro dele e ele era meu conselheiro.”

Um Legado de Clássicos Imortais

Ao longo de suas carreiras, Márcio escreveu aproximadamente 70% das letras das músicas de Lô. Entre suas criações mais célebres estão “Clube da Esquina” e “Clube da Esquina nº 2” (em colaboração com Milton Nascimento), “Para Lennon e McCartney” (com Fernando Brant), “Tudo que você podia ser” e “Um girassol da cor do seu cabelo” — todas produzidas na década de 1970.

Com apenas 18 anos, Lô Borges já tinha canções fazendo sucesso nas rádios. Em 1972, com apenas 20 anos, seu nome apareceu ao lado de Milton Nascimento na capa do histórico disco duplo “Clube da Esquina”. Milton, dez anos mais velho, havia exigido à gravadora Odeon que Lô tivesse posição de destaque no projeto.

Os Detalhes da Produção de “A Estrada”

A produção de “A Estrada” contou com a contribuição do guitarrista Henrique Matheus e do contrabaixista Thiago Corrêa. Para eles, não faz sentido classificar este trabalho como um álbum póstumo, pois foi inteiramente concluído e aprovado por Lô enquanto vivo.

Lô seguia um protocolo criativo consistente: gravava todas as melodias em seus violões e as enviava a Márcio para a criação das letras. Posteriormente, retornava ao estúdio de Henrique para gravar sua voz. O compositor era conhecido por dar “carta branca” aos colaboradores, interessando-se apenas pelo resultado final. Thiago Corrêa relembra que Lô frequentava o estúdio quase toda semana nos últimos anos, mantendo contato diário com sua equipe criativa.

A Última Composição e o Futuro do Legado

Entre os temas enviados por Lô, Márcio recebeu nove músicas completas, sendo que o compositor reservou “Chegada” (a última faixa do álbum) como composição solo. Retrospectivamente, parece que Lô “estava prevendo o fim”. Um dos versos mais tocantes da letra é: “São seis horas da manhã, janeiro choveu” — uma referência à data de nascimento do compositor, 10 de janeiro.

Henrique Matheus relata que há material inédito adicional aguardando decisão da família sobre seu futuro lançamento. Márcio esclarece que não existem parcerias inéditas entre ele e Lô além daquelas já gravadas. A última composição de Lô foi uma letra criada para uma melodia de Thiago Corrêa, consolidando um legado criativo que atravessou gerações.

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