Dr. Fábio Barros
O campo da estética está passando por uma transformação sutil nos consultórios. A introdução da inteligência artificial (IA) está alterando a maneira como os profissionais avaliam características faciais, planejam intervenções e buscam minimizar riscos em procedimentos que têm ganhado popularidade. Esta tecnologia já se faz presente em exames, softwares de imagem e dispositivos que conseguem mapear as estruturas internas do rosto com uma precisão que, há alguns anos, era exclusiva de ambientes hospitalares.
Apesar dos avanços proporcionados pela tecnologia, a IA não substitui a experiência ou o olhar clínico dos especialistas. Sua função principal é atuar como um suporte, auxiliando na análise anatômica e na personalização dos tratamentos.
Esse fenômeno ocorre em meio ao crescente interesse por procedimentos minimamente invasivos. Segundo dados da International Society of Aesthetic Plastic Surgery (ISAPS), mais de 20,5 milhões de intervenções estéticas não cirúrgicas foram realizadas globalmente em 2024. A toxina botulínica destacou-se como a mais utilizada, com cerca de 7,9 milhões de aplicações, seguida pelo ácido hialurônico, que ultrapassou 6,3 milhões de procedimentos.
Com o aumento no número de pacientes à procura de tratamentos estéticos, surge também a preocupação com segurança, planejamento e mitigação de riscos. É nesse contexto que exames que utilizam inteligência artificial começam a se tornar essenciais.
A ultrassonografia facial é uma das aplicações mais significativas atualmente. Esse exame possibilita a visualização de músculos, vasos sanguíneos e tecidos, além de identificar produtos já aplicados anteriormente no rosto. Com o suporte da IA, a análise dessas imagens é aprimorada e pode auxiliar no planejamento específico dos procedimentos.
Esse aspecto é crucial porque cada rosto apresenta características anatômicas únicas. Fatores como a localização dos vasos sanguíneos, a espessura da pele e a distribuição dos tecidos variam entre os pacientes. Em procedimentos que envolvem preenchimentos e outras substâncias injetáveis, essas diferenças podem influenciar tanto o resultado estético quanto a segurança do tratamento.
Uma pesquisa divulgada na Revista Brasileira de Harmonização Orofacial sugere que a ultrassonografia realizada durante o atendimento pode facilitar a visualização da anatomia vascular facial e ajudar na prevenção de complicações. Outra investigação publicada no Journal of Ultrasound descreve o uso dessa tecnologia antes, durante e após os procedimentos estéticos para mapear vasos sanguíneos e acompanhar resultados, além de auxiliar na identificação de intercorrências.
Na prática, essa evolução representa uma mudança significativa na abordagem estética facial. Durante muitos anos, vários procedimentos foram realizados com base apenas em referências anatômicas externas e na experiência do profissional. Atualmente, os exames de imagem permitem um atendimento mais personalizado e aumentam a previsibilidade dos resultados obtidos.
Ainda assim, mesmo com as inovações tecnológicas disponíveis, os procedimentos requerem formação adequada, conhecimento anatômico profundo e avaliação individualizada do paciente. A inteligência artificial não elimina riscos nem substitui as responsabilidades do profissional.
A expansão da IA também suscitou discussões sobre ética e padrões irrealistas de beleza. O uso de filtros digitais, imagens geradas artificialmente e edições tem impactado a percepção estética dos pacientes, criando expectativas que nem sempre se alinham com a anatomia humana real.
Dessa forma, o debate acerca da inteligência artificial na estética transcende o âmbito tecnológico. Ele envolve questões relacionadas à responsabilidade social, limites éticos e saúde mental.
A Organização Mundial da Saúde já enfatizou a importância da supervisão humana nesse contexto, bem como da proteção de dados e diretrizes claras para o uso da inteligência artificial na área da saúde.
No universo estético, talvez o uso mais relevante da IA seja aquele que auxilia os profissionais no planejamento adequado dos procedimentos e na compreensão precisa da anatomia individualizada dos pacientes. Assim é possível oferecer tratamentos mais personalizados sem transformar tecnologia em promessas irreais.